A Engenharia e seu Ensino (4)

Publicado em 28 fevereiro 2013

2 comentários

Até então, abordei, nesta série, apenas a questão do pequeno estoque de engenheiros existente no país e das nossas necessidades urgentes de ampliá-lo. Foi uma análise meramente quantitativa embora tenha se estendido, também, ao exame dos nossos atributos positivos e de algumas possibilidades que mereceriam ser consideradas para a consecução rápida desse objetivo.


Na prática, existe outra questão paralela, igualmente importante. Todos reconhecem a baixa qualidade geral dos nossos cursos de graduação em Engenharia, com as costumeiras e raras exceções representadas pelas Universidades e Centros Acadêmicos que recrutam o seu alunado entre os estratos de melhor formação no Ensino Médio. Do ponto de vista prático, essa deficiência essencial tem reflexos automáticos no mercado de trabalho, na empregabilidade, na variação dos níveis salariais e, principalmente, na efetividade do estoque de engenheiros no atendimento às demandas profissionais, incluída nestas, a sua potencial contribuição para o desenvolvimento socioeconômico do país.


Os estudos de Silverstein e Singhi (BCG) que tenho mencionado nesta série fazem referência a informações divulgadas pelo Fórum Econômico Mundial que são interessantes no exame dessa questão.  A qualidade e a adequabilidade dos cursos de graduação em Engenharia variam muito, mesmo entre os países que têm se destacado no esforço para melhorar substancialmente os seus próprios índices (China e Índia) e os que lutam por manter as posições já conquistadas (EUA). E essa variação tem implicações diretas na empregabilidade funcional dos graduados, no seu potencial de utilização imediata e, como consequência, no atendimento às demandas setoriais e nacionais. Segundo aqueles especialistas, 81% dos engenheiros graduados nos EUA estão em condições de empregabilidade imediata e podem apresentar bons rendimentos funcionais ao término dos respectivos cursos de formação. Comparativamente, os resultados são muito piores na Índia (25%) e na China (10%), cujos graduados não estariam igualmente bem preparados e costumam exigir longos períodos de adaptação e de treinamento complementar.


Há um agravante adicional ainda pior, no que diz respeito à qualidade e suficiência dos cursos de graduação em Engenharia. Os profissionais com deficiências muito acentuadas na sua qualificação costumam engrossar as fileiras dos desempregados crônicos ou serem contratados para funções menos exigentes e pior remuneradas. Essa parece ser uma característica presente no mercado de trabalho nacional (mesmo na nossa situação atual de pleno emprego), com dupla implicação: de um lado, aumenta a dificuldade de atendimento às demandas da indústria e, de outro, frustra e desestimula aqueles que viam na graduação em Engenharia uma opção para o alcance de bons salários, de ascensão social e de níveis superiores de consumo, de bem-estar e de conforto.


O que fazer para melhorar a qualidade na grande maioria dos nossos cursos de formação em Engenharia? Essa é uma questão muito complexa e difícil, pelo número de variáveis envolvidas e pelo próprio estágio de desenvolvimento e organização em que nos encontramos. Entram, também, na solução, parâmetros relacionados com a nossa própria tradição cultural e com a motivação nacional para uma vida estudantil mais aplicada. Vou tentar abordar resumidamente, em tópico subsequente desta série, alguns pontos que julgo importantes. Mas, de imediato, as considerações alinhavadas nos parágrafos antecedentes servem para embasar uma conclusão preliminar: se o objetivo é aumentar rapidamente o estoque de engenheiros capacitados e habilitados, a solução simplista de facilitar o ingresso nas Universidades, aliviando exigências e requisitos, não pode ser o caminho preferencial, já que este seria um fator que contribuiria para piorar ainda mais a qualidade profissional dos futuros graduados.

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2 comentários para "A Engenharia e seu Ensino (4)"

Frederico Luiz Mendes
Frederico Luiz Mendes disse: 04 março 2013
Rubens, bom dia!
Concordo com o que voce disse (escreveu).
Mas qual a solução a curto prazo? afinal bons alunos surgem de boas escolas, com boa estrutura.
Temos a cultura de "glorificar o errado", dizer que o esperto é o melhor, o aluno que cola, é melhor que o nerd.
Tentamos enganar até os professores, e eles fingem que são enganados, afinal a maioria só quer receber o salário no final do mes.
Os melhores alunos no Brasil, são misturados aos piores (inclusão social), e com isso, vira "um sopão". Sala cheia de alunos medianos.
Penso, que devemos sim, importar engenheiros, trabalhar e aprender com eles.
Mas, tudo isso é assunto para longas conversas.
Grande abraço.
Frederico Mendes
92827D/MG
Ricardo
Ricardo disse: 04 março 2013
Sabes bem que a qualidade da costrução no brasil é um horror

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