A Física, a Inércia e a Economia

Publicado em 14 julho 2015

8 comentários

A crise político-econômica nacional virou o assunto do dia e vem sendo comentada ou discutida por um número cada vez maior de brasileiros. Essas abordagens são muito variadas e costumam externar as preferências ideológicas de cada pessoa, o maior ou menor nível de conhecimento desses mesmos interlocutores e, até, o grau de esperança ou otimismo com que vêem o futuro. Mas, alguns modelos simples podem ajudar na organização das idéias e na objetividade do raciocínio. Como engenheiro, recorro com freqüência aos modelos gráficos, às formas geométricas e aos conceitos da Física para organizar meus pensamentos ou para visualização de fenômenos econômicos ou sociais em analogias heurísticas de fácil percepção. É um hábito natural na minha profissão.


Com esse viés, vejo a economia brasileira (e a de qualquer outro país ou região) como um sistema complexo e pesado, posto a movimentar-se pelo esforço de todos os agentes envolvidos (empreendedores, consumidores, governo e a sociedade em geral). Gosto de comparar a economia a uma bola de chumbo. Desde que o País passou a se organizar – ainda nos tempos de colônia – essa bola passou a crescer e a se movimentar segundo as leis da Física, até atingir as dimensões e a velocidade atuais (uma bola de chumbo tanto maior e mais pesada quanto maior e mais complexa fica a nossa economia). Todo acréscimo de velocidade nesta bola (crescimento do PIB) resultou de um esforço equivalente por parte dos seus agentes econômicos. Quando o esforço total diminui até ficar apenas igual ao atrito (e outras formas de perda de energia) que a bola tem que vencer, o sistema mantém a velocidade inercial de antes, sem crescimento. Abaixo desse limite crítico, a bola vai perdendo a velocidade, materializando uma situação de recessão, com perda de renda e empregos e com a diminuição do PIB.


Segundo essa analogia, a redução na velocidade da bola pode resultar da diminuição conjunta dos esforços dos agentes (menor contingente de trabalho, queda de produtividade, redução dos investimentos, etc.) ou do aumento da resistência ao movimento, consumindo esforços não produtivos (excesso de burocracia, hipertrofia da máquina pública, insegurança jurídica, crescimento da carga tributária, etc.), ou, ainda, da conjunção dos dois tipos de fator. Da mesma forma, quando a velocidade da bola diminui, a perda da quantidade de movimento anterior, que deveria ser mantida pelas simples condições inerciais, resulta no desperdício de energia materializada no desemprego, na redução de salários, nas perdas de renda, na fuga de capitais, em empreendimentos paralisados, etc.). Essa é a situação da realidade econômica nacional, que posso ver atualmente por esse modelo de analogia física.


Aliás, para não fugir da Física, costumo associar o crescimento absurdo da resistência ao movimento, causado entre outras coisas pelo excesso de regulação, de burocracia e de intervenção governamental nos mercados, ao fenômeno da entropia, que segundo as leis da termodinâmica, descreve o crescente estado de desordem do sistema e de sua vizinhança, diminuindo a espontaneidade dos movimentos úteis.


Temos que modificar esse panorama com rapidez, aumentando a eficiência do nosso sistema produtivo. Vejo, pelo menos, dois obstáculos mais significativos: a falta de confiança (interna e externa) e a ausência de uma forte liderança política capaz de empolgar a nação e se identificar com o objetivo da volta do crescimento econômico. Esse último obstáculo é especialmente complicado, tendo em vista que os governantes recém eleitos estão imobilizados pelo quadro nefasto da inflação descontrolada, da falta de atratividade para investimentos, dos juros estratosféricos, da perda acelerada de empregos, da queda na renda média e dos escândalos de corrupção na maior empresa estatal brasileira. Mas é preciso resolver esse impasse, com eficiência e absolutamente dentro das regras democráticas. É o mínimo que devemos fazer, não apenas em nosso próprio interesse, como também por ser um tributo devido a todos aqueles que se esforçaram, por gerações, a empurrar a bola garantindo-lhe o movimento positivo, enquanto ela crescia, ficava mais complexa, oferecia mais empregos e garantia rendimentos maiores.

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8 comentários para "A Física, a Inércia e a Economia"

Andres Mendez
Andres Mendez disse: 14 julho 2015
Sem dúvidas a economia de um pais é a soma dos esforços de todos, o que muda é a qualidade do esforço e a intensidade do mesmo
No Brasil ainda nos falta aprender a planejar, esta deve ser a causa principal das nossas dificuldades, a falta de alternativas depende bastante da falta de planejamento e sem isto não temos GESTÃO o que aumenta a dificuldade para encontrar soluções que todas juntas representam a economia do pais.
cada um deve fazer a sua parte, bem feita, e a economia então vai funcionar a favor de todos. Nossa prosperidade ajuda os outros desde que esteja dentro das regras do bem comúm
Rodrigo Cabral
Rodrigo Cabral disse: 14 julho 2015
Boa analogia! Como se sabe, a lei fundamental do universo é "a entropia sempre aumenta", ou "o caos sempre aumenta". Sem um bom governante para organizar o país, estaremos fadados à nossa natureza caótica.
Carlos Nunes
Carlos Nunes disse: 15 julho 2015
Se o nível de consciência do empresariado nacional fosse mais elevado em relação à função social de suas atividades, a atual crise seria evitada. Buscam "lucro a qualquer custo" (social).
Marcelo Candiotto Freire
Marcelo Candiotto Freire disse: 15 julho 2015
Dr. Rubens, o texto retrata de forma muito clara o que estamos passando no Brasil.
Esta liderança política que ainda inexiste nos faz falta. Certamente teria de ser alguém que nos entusiasmasse como Nação. Um dos grandes desafios desse líder brasileiro seria enfrentar e conseguir politicamente solucionar os graves temas que deixam a bola mais pesada para quem trabalha e tem o fardo de empurrá-la.
Dr. Rubens, o senhor pensa ser possível que grandes líderes empreendedores honrados e admirados como você, Salim e alguns outros poucos, poderiam se unir em torno desta dificílima tarefa de se encontrar esta pessoa?
Um fraterno abraço, Marcelo Candiotto
Lucas Ferreira da Silva
Lucas Ferreira da Silva disse: 16 julho 2015
Excelente matéria, fico extremamente admirado com o trabalho e com o exemplo deste mega engenheiro. Como técnico em Edificações, e em breve estudante de Engenharia Civil, sonho em me tornar um excelente engenheiro. É sempre bom ler boas reportagens como essa.
marcelo
marcelo disse: 17 julho 2015
Gostei do seu artigo. E eu acho que,para fins de analogia,a dinamica dos fluidos gera modelos bem similares aos da econometria.
Flavio Melo Moreira
Flavio Melo Moreira disse: 22 julho 2015
Acredito que vivemos recententemente no nosso país um "boom" econômico do qual não víamos a séculos e que durou poucos anos e que poderia ser melhor explorado pelo nosso governo, se preparado para o crescimento e para a "crise", um crescimento descomunal nós que estávamos nas obras neste momento víamos dia após dia uma grande barreira como: A produção da industria não conseguia atender a demanda da construção ocasionando a falta e demora nas entregas de produtos nas lojas e nas obras, gera atraso nas obras e cronogramas, falta absurda de mão de obra e principalmente muito desqualificada até mesmo na gestão, além de que muita especulação de "investidores" na industria da construção civil, com a boa fase aumento absurdo no valor dos terrenos e imóveis, estavam impraticáveis, o bom momento foi um grande atrativo, de fato não estávamos preparados para ele pela falta de infraestrutura no nosso país. Vejo que nesta crise é um bom momento para repensar a forma de todo processo construtivo da industria da construção civil, já encontramos mão de obra um pouco mais qualificada e principalmente menos especulativa e principalmente já recebemos o material em dia na obra e com preços mais competitivos, não teremos momentos fáceis na construção mas com grandes desafios. Extraordinário texto, eu como um grande otimista e construtor acredito que tudo passará, no Brasil estamos em crise desde o momento em que os Portugueses chegaram aqui.
luiz gonzaga
luiz gonzaga disse: 04 setembro 2015
Se verificarmos nossa econômia nos ultimos 50 anos,vamos encontrar sempre o mesmo contesto, grandes empresas, que vieram ficaram por um periodo e passaram(faliram) e outras que se solidificaram atravessaram periodos bons e ruins sobreviveram. não me cabe aqui estender mais neste assunto,mas saibamos que temos o lado cultural de um pais que já conhecemos, é atal lei do gerson de levar vantagens; Grandes empresários que colocam em seus Blogs o lado bonzinho e eficiente, mas não cumprem nem com o social, jogam a sugeira por debaixo do tapete.Estes sim sufocam a classe menos favorecidas.Mas como nada é para sempre, vamos aprendendo e crescendo como seres humanos para que no futuro podemos deixar um legado para os que vierem de nem só de pão vive o homem, e desta forma olhar para nossos semeelhantes como verdadeiros irmãos dando á eles a oportunidade do crescimento que fara bem a todos.

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