A Insegurança Hidrelétrica (2)

Publicado em 17 janeiro 2013

1 comentários

Sob este mesmo título, relembrei o triste episódio do "Apagão Elétrico" que flagelou a nação entre julho de 2001 e fevereiro de 2002 e mencionei os seus piores efeitos, tanto aqueles que foram sentidos imediatamente, quanto os que persistem até hoje. Saímos daquela crise pela conjunção de fatores naturais (a ocorrência de boa quantidade de chuvas a partir de dezembro de 2001), da excepcional colaboração da sociedade (com a mudança de hábitos de consumo, que incluíram trocas de equipamentos elétricos domiciliares e industriais) e de providências governamentais (implantação emergencial de grande número de usinas termelétricas, cujo tempo de construção ou reativação é sensivelmente inferior ao das hidrelétricas). Salientei, no entanto, que esse remédio emergencial e inevitável a curto prazo trouxe graves inconvenientes ao se transformar em solução definitiva e permanente, expondo novamente ao risco o sistema elétrico brasileiro e sujando, ambientalmente, a nossa matriz energética (a existência das termelétricas, que já respondem por quase 30% da geração nacional, encarece a energia produzida, é altamente poluidora e favorece a equivocada política que descarta a construção de novos reservatórios de regularização fluvial).


Este blog não é o espaço apropriado para abordar mais detalhadamente os efeitos ambientalmente negativos das termelétricas, que não se restringem às emissões atmosféricas, ao uso intensivo de combustíveis fósseis e às exigências de disponibilidade de água para refrigeração, por exemplo. Mas, por outro lado, não quero deixar de aduzir algumas informações e opiniões acerca dos riscos associados à progressiva transformação do Sistema Interligado Nacional – SIN em uma rede de usinas que, em seu conjunto, opera cada vez mais a fio d’água, ou seja, com volume relativo de armazenamento e capacidade de regularização menores a cada ano.


O Brasil foi prodigamente dotado, pela natureza, com recursos hídricos abundantes e com uma rede fluvial muito favorável à exploração hidrelétrica. E soube aproveitar razoavelmente bem essa circunstância, implantando um portentoso parque gerador, com características ambientalmente limpas, a exemplo de outras nações igualmente bem servidas desse recurso (EUA, Rússia e Canadá). A nossa capacidade instalada de geração hidrelétrica subiu de 250kW, quando foi implantada em Juiz de Fora a primeira usina desse tipo construída na América do Sul, no ano de 1889, até a potência de cerca de 85GW (= 85 milhões kW) com que contamos atualmente.


A partir de 1955, com o início do desenvolvimento econômico mais acelerado do país e com o incremento do parque gerador a taxas muito mais elevadas, esse potencial instalado pôde ser operado com relativa segurança porque passou a contar com a indispensável regularização das vazões em grandes reservatórios, capazes de garantir a produção em longos períodos de escassez com o estoque de águas acumuladas nos anos mais úmidos. No entanto, essa política de segurança, que garantiu a operação normal do sistema durante as fortes estiagens ocorridas na década de 1950 e no ano excepcionalmente crítico de 1971 vem sendo revertida desde 1985 e foi praticamente abandonada a partir do apagão de 2001. Essa situação fica bem evidente quando se compara a evolução, no período, da relação entre a energia armazenável nos reservatórios (na forma de água estocada) e a capacidade instalada de geração hidrelétrica. Em números redondos, essa relação caiu cerca de 33% entre os anos de 2000 e 2012. Na realidade, a situação é ainda mais desconfortável. Ao final da década de 1980, tínhamos capacidade de estocar água suficiente para garantir quase dois anos de consumo e, atualmente, essa garantia não supera seis meses. O mais grave, é que esses índices continuarão caindo com o elenco de obras selecionado para as próximas décadas.


Mas, de onde vem a equivocada aversão nacional à construção de hidrelétricas com grandes reservatórios de regularização, que garantia a tranquilidade operacional anterior? Nesse particular, fomos vítimas da desinformação geral e da simples importação de conceitos que estiveram em moda nos países que não contam com a mesma disponibilidade hídrica aproveitável com que a natureza nos dotou. As dificuldades atuais não se restringem às etapas formais do licenciamento ambiental para esse tipo de empreendimento. Há uma ação organizada e permanente de ONGs ambientalistas, que mobilizam comunidades indígenas e até celebridades internacionais da música, das artes e da política, além da presença atuante de um "Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens". A causa, aparentemente simpática, e a falta de conhecimento técnico acerca das desvantagens das termelétricas e do perigo dos riscos atuais do sistema hidrelétrico, acabaram por balizar a própria imprensa e as instâncias judiciais, incluindo, principalmente, o Ministério Público. Essa é uma questão complexa, mas que precisa ser objeto de uma profunda e rápida reflexão nacional. É intolerável a possibilidade de repetirmos, por simples equívoco, os inconvenientes de um apagão elétrico.

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1 comentários para "A Insegurança Hidrelétrica (2)"

wendell
wendell disse: 25 janeiro 2013
Com um país de potencial fluvial invejável ficarmos a mercê de outras fontes mais caras e muito mais poluidoras é no mínimo inadmissível.
Abraço
Atendimeneto MRV Engenharia
Atendimeneto MRV Engenharia disse: 06 dezembro 2016
Olá, Naysa. Tudo bem? Muito obrigada pelo seu feedback. Já passamos sua sugestão para a área responsável!

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