Ambiente Empresarial

Publicado em 19 fevereiro 2016

14 comentários

Na economia, como na natureza, quase todos os processos e atividades – em maior ou menor grau, dependendo de sua espécie e complexidade – podem ser considerados como a resposta dos respectivos sistemas ao ambiente em que eles ocorrem. Em geral, existe uma regra básica que costuma ser aceita sem controvérsia: ambientes bons (saudáveis, equilibrados, sustentáveis ou racionais) são exigências obrigatórias para que os processos produzam bons resultados, incluindo, tanto aqueles de características naturais, como os antrópicos, classe em que podem ser enquadradas as atividades econômicas. Os especialistas em "software" para informática costumam definir esse fenômeno no âmbito de ambientes menos controlados em que alguns aplicativos são desenvolvidos – descontrole este que acaba gerando a produção de maus resultados – com uma expressão importada da engenharia sanitária: "GIGO: garbage in, garbage out", ou seja, se entra lixo, sai lixo.


Nessas questões, costumo argumentar, sempre, com a analogia do processo de despoluição e revitalização do Rio Tâmisa, que corta a cidade de Londres e que, historicamente, sempre representou a fonte de abastecimento de água, de absorção de esgotos e resíduos e de transporte fluvial para a grande população estabelecida em suas margens. Tantos foram os maus tratos ao rio, que as suas águas passaram a ser impróprias para o consumo, transformaram-se em fonte de odores insuportáveis e de miasmas pestilentos (que, até, obrigaram a suspensão de reuniões do Parlamento Britânico), contribuíram para a extinção da fauna no curso d’água e em boa parte da sua bacia hidrográfica e ajudaram a potencializar episódios graves de saúde pública (incluindo a peste que vitimou o Príncipe Albert, marido da Rainha Vitória). Na realidade, o processo de degradação do rio inglês teve início ainda no Século XVII, ficou dramaticamente marcado no episódio do naufrágio do navio Princess Alice – ocorrido em 1878, quando quase 600 passageiros morreram de intoxicação enquanto nadavam em direção à margem – mas atingiu um nível definitivamente intolerável a partir da década de 1950. No período em que, a cada ano, mais lixo entrava, mais lixo saia também do sistema (este sob a forma de agressões à natureza e aos seres humanos). A civilizada Inglaterra decidiu, finalmente, ativar o maior e mais dispendioso programa de obras e serviços destinados a recuperar a qualidade das águas e a revitalizar uma bacia hidrográfica jamais conduzido, até então, em qualquer ambiente fluvial do planeta. O objetivo do programa era simples: impedir que lixo entrasse no sistema (esgotos, efluentes industriais, resíduos urbanos, fluxos de drenagem, etc.) para que nenhum lixo fosse produzido como resposta (mortes, doenças, degradação do patrimônio, extinção da fauna, etc.). Foi e continua sendo um sucesso!


Fiz essa longa introdução histórica para enfatizar a analogia da situação inglesa descrita, com outra que nos atinge atualmente. Não temos, no Brasil, um bom ambiente de negócios. E não estou me referindo, aqui, a problemas mais conhecidos e aceitos como o excesso de burocracia, a absurda carga tributária, a anacrônica regulamentação legal das atividades produtivas e comerciais, as deficiências de infraestrutura, o gigantismo do Estado, o desequilíbrio fiscal das contas públicas e outros fatores que aumentam o denominado "Custo Brasil", diminuindo a competitividade nacional e, até mesmo, impedindo a continuidade de muitas atividades empresariais. Neste tópico, estou focando, essencialmente, a componente psicossocial do processo que deteriora o nosso ambiente de negócios, um pouco dentro do modelo estrutural sugerido pelo psiquiatra alemão Dr. Erik Erikson.


Nos países desenvolvidos, as populações admiram, prestigiam e adotam as suas grandes empresas, vendo-as como fonte de progresso e como agentes do desenvolvimento. Aqui, ocorre generalizadamente um sentimento oposto: grande parte das pessoas desenvolveu uma espécie de preconceito antiempresarial, torce contra o sucesso das empresas e não percebe que são justamente esses agentes os responsáveis pela geração de riqueza e pelo desenvolvimento econômico e social. Figurativamente, esse é um tipo de "lixo" que compromete o ambiente de negócios e acaba por produzir "lixo" nas respostas do sistema. Essa situação fica estatisticamente visível no pequeno interesse dos brasileiros por suas empresas. No Brasil, apenas 500 mil pessoas possuem ações negociadas na BOVESPA e um número ainda menor se preocupa freqüentemente com a saúde financeira das empresas de que são acionistas. Para comparação, nos EUA, existem 100 milhões de pessoas proprietárias de ações negociadas em Bolsas de Valores e uma expressiva parcela delas acompanha atentamente os movimentos do Índice Dow Jones, por exemplo. E, claro, torcem pelo sucesso das empresas de que são donos, contribuindo, assim, para a criação e manutenção de um bom ambiente de negócios naquele país.


Essa diferença de comportamento e seus efeitos mereceriam uma atenção maior da parte dos formadores de opinião, das universidades e centros de pesquisa, dos sindicatos e associações de classe e, sobretudo, das lideranças políticas. Precisamos discutir e formatar um programa educacional com os conceitos pertinentes. Esse é o nosso Tâmisa a despoluir, com urgência. Precisamos remover o "lixo" desse sistema, representado pelo entulho ideológico e pelo atraso preconceituoso. É isso, ou continuaremos a produzir "lixo" como resposta ao ambiente inóspito

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14 comentários para "Ambiente Empresarial"

Andres Mendez
Andres Mendez disse: 19 fevereiro 2016
Muito importante este artigo, mostra que as nossas falhas são culturais e sairemos da crise quando entendamos que projetos devem ser criados, empresas devem ser incentivadas pessoas devem ser educadas
Marcos
Marcos disse: 20 fevereiro 2016
Interessante o artigo... instigante!! A maior crise é a crise de confiança!!
Daniel Morbeck
Daniel Morbeck disse: 22 fevereiro 2016
Verdade. Ainda existe o velho jargão de que o "patrão" é o vilão. Muitas vezes alimentado pelos sindicatos e esquerdistas do país.
Gustavo Malachias
Gustavo Malachias disse: 24 fevereiro 2016
Parabéns Rubens, é por essas e outras que a MRV é a maior e mais sólida construtora do Brasil... e será do mundo. Apesar da sujeira do ambiente Brasil, a MRV sempre buscou o caminho da lei, e por isso não está misturada em tanta sujeira, escolheu o caminho correto.

Gostaria de voltar a trabalhar aí!

Abraços,

Eng. Gustavo Malachias
André Rangel
André Rangel disse: 24 fevereiro 2016
Marcos,
Muito interessante essa ilustração sobre o que a Inglaterra fez com o Tâmisa.

Fico a pensar sempre a mesma coisa quando estou prestes a aterrissar em São Paulo e vejo o Rio Pinheiros/Tietê, onde neste último há pouco mais de 100 anos atrás eram disputadas provas de natação em uma sede náutica que está lá até hoje.
O mesmo com relação à Baia de Guanabara, aqui no Rio de Janeiro.

E migrando para o paralelo que comentou, acredito também que precisamos acreditar que as coisas se resolvem, e buscar a solução dos problemas, escolhendo bem nossos representantes, cobrando suas ações e principalmente a honestidade e lisura em suas ações.
Eu sou do time dos que preferem vender lenços enquanto todos choram. Para o bem e para o mal, o calendário avança inexoravelmente.
A hora boa vai chegar e cabe a cada um de nós escolher o que fazer com nosso tempo: chorar ou acreditar.

Forte abraço.
Andre.
Ainer Junior
Ainer Junior disse: 25 fevereiro 2016
Concordo plenamente... Mas, tenho certeza de que despoluir o nosso sistema será outra ação de proporções planetárias. Teremos líderes para isso?
Eduardo
Eduardo disse: 25 fevereiro 2016
Reflexo de educação sindicalista nos países latinos. Empresa grande, sinônimo de greves e demissões, etc
Tem de ambos lados pensamentos errados.
Dar poder a um brasileiro sobre outro brasileiro, nunca terá um tratamento justo que permita crescimento ao subordinado, dai as raivas.
É um caos feito escola durante décadas no ambiente brasileiro.
Por isso, tantos executivos de fora, por isso se repelem...
Alessandra Hudson
Alessandra Hudson disse: 02 março 2016
Falta educação! E educação empreendedora! Qual percentual da população tem acesso à educação de qualidade? Pra entender que só se divide riqueza quando a geramos! E negação a este estado paternalista superdimensionado e intervencionista!
Geralda Machado
Geralda Machado disse: 03 março 2016
Ordem e Progresso,ética!!!!!
José Adair de Lacerda
José Adair de Lacerda disse: 16 março 2016
Brasileiro adora mesmo são das coisas que subsistem com recursos públicos: BB, Caixa, Eletrobras, Petrobras, INSS, Minha Casa Minha Vida, e também de um emprego público, garantido, pouco trabalho e alta remuneração.
Evandro Milet
Evandro Milet disse: 17 março 2016
Prezado Rubens\nUm motivo para isso é que os livros de geografia e história adotados nas escolas pública e privadas(!) Falam mal da iniciativa privada pregando conceitos marxistas literaralmente. V\nEvandro
Jones Crespani Longaray
Jones Crespani Longaray disse: 24 março 2016
Ótimo artigo, é imprecindivel pensar em crescimento social sem um cenário econômico favoravel o que é vital para o crescimento de uma nação, as empresas são o ponto chave, sendo nossas fontes geradoras diretas desta econômia, assim devemos conscientemente preserva-las por sua natureza geradora de riqueza e que garante por consequencia o bem comum.
Francisco de Alencar Santos
Francisco de Alencar Santos disse: 28 março 2016
Eu sou dentista, mais tenho um filho que estuda engenharia civil e estar fazendo o terceiro ano está louco para estagiar, existe vagas nesta gde empresa. Feliz pascoa e boa noite.
José Milton Ferreira
José Milton Ferreira disse: 23 maio 2016
Quer queiramos fazer a "limpeza" necessaria, ou não, isto não importa no momento, no entanto, chegará, inexoravelmente,o momento, que haveremos de perceber que não teremos mais tempo para corrigir vicios, combater males e esconder sujeiras debaixo do tapete da sala sala da vaidade.Chegará o tempo que haveremos de perceber que não temos o direito de continuar brincando de meninos ricos e mimados por uma natureza abundante, um tempo que seremos forçados tomar vergonha e sermos mais éticos.parabéns pela reflexão Senhor Rubens e que Deus nos inspire mais humanidade.

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