Capacidade de Gestão

Publicado em 07 maio 2015

6 comentários

Desta vez, começo este tópico com um depoimento pessoal, mas que pode ser de grande utilidade para introduzir as questões que pretendo enfatizar aqui. Estive recentemente com um grande investidor estrangeiro, que havia acreditado no Brasil e investido aqui quantidades significativas de capital. Esse investidor estrangeiro perdeu, no período mais recente, com as dificuldades enfrentadas pela economia nacional, volumes financeiros razoáveis e estava justamente consolidando as suas estratégias para evitar ou minimizar outras perdas futuras. O que é importante ressaltar foi a opinião desse investidor durante as conversas que mantivemos. Na opinião dele, não faltam ao Brasil bons projetos e nem mesmo boas oportunidades para empreendimentos. Segundo ele, o que falta ao Brasil é capacidade de gestão, ou seja, competência e disposição para bem gerenciar os projetos e empreendimentos e para bem aproveitar as oportunidades. Fui forçado a concordar com ele e, depois de muita reflexão, passei a perceber que muitas das nossas mazelas, como o excesso de burocracia ou a baixa produtividade, por exemplo, surgem ou são potencializadas pela baixa capacidade nacional de gestão.

Em geral, se examinarmos cuidadosamente a realidade de países em estágio igual ou superior ao nosso no que diz respeito ao desenvolvimento econômico, notadamente os EUA, o Canadá, o Japão e a maioria das nações integrantes da União Européia, podemos constatar, com facilidade, que os gestores das agências e instituições públicas apresentam boa formação acadêmica e somente os mais preparados e eficientes alcançam posições de destaque nas respectivas estruturas hierárquicas, em moldes muito semelhantes aos que se observam nas empresas privadas. Há casos, inclusive, em que executivos de órgãos ou agências públicas de grande responsabilidade são recrutados através de anúncios de jornal e com base em seleções muito rigorosas e competitivas. Não é hábito por lá a nomeação política, assim como o nepotismo e o compadrio. Seleciona-se pelo mérito, que também é usado nas avaliações periódicas. E é sempre dada ênfase ao preparo educacional do candidato e ao conhecimento de matérias específicas exigidas para o bom desempenho das funções a serem preenchidas.

Um exemplo particularmente interessante, sob esse aspecto, é o que pode ser observado nas empresas privadas e nos órgãos públicos da Coréia do Sul, país freqüentemente utilizado para as comparações com o Brasil. As posições de direção ou gerência de instituições públicas naquele país são preenchidas com pessoal de carreira, com domínio técnico sobre as matérias e campos que terão de tratar e com bom nível cultural, de forma que possam receber, eficientemente, o investimento público permanente para a sua melhoria e capacitação complementar. Nesse particular, quero destacar que a Coréia do Sul pôs em curso uma verdadeira revolução educacional nas últimas três décadas. Essa revolução educacional não resultou apenas na excepcional melhoria na capacidade de gestão de empresas e de agências públicas. Ela beneficiou toda a sociedade que deixou de ser um país subdesenvolvido e que enriqueceu, oferecendo níveis crescentes de prosperidade ao seu povo. Um país, que no final do século passado ainda apresentava níveis elevados de analfabetismo (real ou funcional), passou a ter o invejável índice de 82% de sua população estudantil matriculados em ótimas universidades. Isso não aconteceu por acaso; na Coréia do Sul, o avanço educacional (e com ele a melhoria na capacidade de gestão) resultou de um grande programa governamental de investimento no ensino, e da determinação das famílias que reconheceram obstinadamente esse caminho como sendo o que melhores chances oferecia ao desenvolvimento pessoal e à prosperidade coletiva. Passadas três décadas desse esforço objetivo e continuado, a diferença está aí, visível a olho nu. Nós ficamos para trás, em capacidade de gestão e em riqueza.

Registrei essas observações resumidas para enfatizar a conveniência de que façamos, também por aqui, uma revolução educacional concomitantemente com uma profunda modificação nas práticas de provimento das funções públicas e privadas. Em ambos os setores (público e privado) temos que investir em novas técnicas e paradigmas de gestão, mesmo porque, se não o fizermos simplesmente deixaremos de ser competitivos no mundo globalizado, sejam as nossas empresas, seja o nosso próprio país e suas instituições públicas.
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6 comentários para "Capacidade de Gestão"

Tulio Zambelli
Tulio Zambelli disse: 10 maio 2015
O modelo atual foi construído a partir da inercia e da incompetência dos setores organizados da sociedade que sempre acharam que a antítese do trabalho era a politica imaginavam que seriam salvos pelos bons resultados de uma estatística oficial totalmente equivocada, Atribuo ao FHC toda a culpa pelo estado em que se encontra o pais, um covarde ,fanfarão que entregou ao lULA o Brasil que estávamos construindo para os nossos filhos
Marcio Barros
Marcio Barros disse: 11 maio 2015
SR. Menin;\nGostaria de parabenizá-lo por trazer a tona este assunto tão importante, nesse lúcido artigo. Assunto este, que tem prioridade nas minhas leituras a longa data. Gostaria de aproveitar a oportunidade para mencionar duas questões referentes ao problema de gestão no Brasil. 1- Ao contrario do que o senhor diz, não acredito que o problema de gestão no pais seja apenas público. Vivêncio na prática, diariamente, a carência crônica de gestores na iniciativa privada. Com exceção de um pequeno numero de empresas, sobretudo grandes, a maioria dos empreendimentos no Brasil tem uma gestão caótica, em todos os níveis gerenciais, da presidência ao chão da fábrica. 2- Não entendo porque no Brasil, a maioria dos homens influentes e preparados (...), que poderiam contribuir muito para o país, viram as costas para a política, deixando-a nas mãos de pessoas corruptas e sobretudo incompetentes e descompromissadas com o futuro do país.
andres mendez
andres mendez disse: 14 maio 2015
Nosso problema é cultural, no Brasil defendemos em primeiro lugar nosso próprio bolso e a empresa fica para segundo lugar, não importando se é empresa publica ou privada, primeiro defendemos o nosso lado, depois o lado da empresa e por ultimo o mercado Dó pais nem nos lembramos, Nosso orgulho está no Bolso e nas riquezas que podemos obter não importa o caminho
Nos E. Unidos primeiro está o pais, segundo a empresa, terceiro o mercado e quarto o lado pessoal. Esta é a diferença, provavelmente porque a impunidade e corrupção se instalou com tanta força que nossos princípios e valores não resistiram ao embate e atuamos movidos por interesses pessoais
Educação vai ajudar muito, mas as empresas devem ter um objetivo bem claro e seus princípios éticos devem estar acima de todos os outros, se eliminamos a corrupção mesmo em estagio pequeno, o cartel e assumimos que a empresa está acima de todos os valores pessoais e tudo amparado por uma bandeira sentiremos orgulho do que somos e nosso pais será um exemplo de prosperidade . O nacionalismo e a empresa, fazem o homem andar certo e produzir para todos na sua sociedade. Não há espaço para o Ego, maior amigo da corrupção mesmo a leve poque não pode existir corrupção leve ou ignorância pequena
Rubens Menin
Rubens Menin disse: 19 maio 2015
Olá Andres, agradeço a participação aqui no Blog.
Andres P Mendez
Andres P Mendez disse: 14 maio 2015
Nosso problema é cultural, no Brasil defendemos em primeiro lugar nosso próprio bolso e a empresa fica para segundo lugar, não importando se é empresa publica ou privada, primeiro defendemos o nosso lado, depois o lado da empresa e por ultimo o mercado Dó pais nem nos lembramos, Nosso orgulho está no Bolso e nas riquezas que podemos obter não importa o caminho
Nos E. Unidos primeiro está o pais, segundo a empresa, terceiro o mercado e quarto o lado pessoal. Esta é a diferença, provavelmente porque a impunidade e corrupção se instalou com tanta força que nossos princípios e valores não resistiram ao embate e atuamos movidos por interesses pessoais
Educação vai ajudar muito, mas as empresas devem ter um objetivo bem claro e seus princípios éticos devem estar acima de todos os outros, se eliminamos a corrupção mesmo em estagio pequeno, o cartel e assumimos que a empresa está acima de todos os valores pessoais e tudo amparado por uma bandeira sentiremos orgulho do que somos e nosso pais será um exemplo de prosperidade . O nacionalismo e a empresa, fazem o homem andar certo e produzir para todos na sua sociedade. Não há espaço para o Ego, maior amigo da corrupção mesmo a leve poque não pode existir corrupção leve ou ignorância pequena
Bruno Santos
Bruno Santos disse: 19 maio 2015
Parabéns Rubens, ótimo texto!

Bruno Santos (Mediare)

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