Como interpretar o IBOVESPA em 50 mil pontos?

Publicado em 12 março 2015

Comparar indicadores econômicos e, principalmente, o desempenho de bolsas de valores em países distintos é uma tarefa difícil e, quase sempre, costuma gerar interpretações equivocadas ou que não se sustentam com o passar do tempo. Mas, em termos de grandes tendências, e apenas para tentar entender o que está ocorrendo no mercado acionário nacional, merece ser encarado esse desafio de interpretação e de comparação, na forma resumida do presente tópico.

Em favor da simplificação, vou considerar a evolução do IBOVESPA (índice que mede a performance média das ações cotadas na maior bolsa de valores brasileira) e os dois principais índices norte-americanos equivalentes: Dow Jones e S&P 500 para comparar a evolução dos dois mercados entre abril de 2009 (seis meses após a eclosão da grande crise financeira internacional) e o momento atual. Abstraído o risco de distorções introduzidas pelas complexas variações cambiais no período, na dolarização dos indicadores brasileiros, percebemos, grosso modo, que os investidores norte-americanos tiveram um acréscimo patrimonial cerca de quatro vezes maior do que aqueles que investiram no mercado brasileiro. Em outros termos, em média e nestes seis anos, para cada dólar investido aqui ou lá, as ações negociadas na BOVESPA valorizaram-se apenas 25% da valorização equivalente observada no mercado norte-americano. Qual seria a lógica por trás dessa incrível diferença?


Em primeiro lugar, cumpre observar que, à exceção da Petrobras (imersa em uma crise complicadíssima e que tem uma participação considerável na formação do IBOVESPA) as demais empresas brasileiras apresentaram um desempenho razoável nesses mesmos seis anos e seus resultados não se distinguem significativamente daqueles produzidos no mercado norte-americano. Portanto, admitida uma pequena parcela desfavorável ao Brasil na comparação entre os indicadores dos dois mercados, devida à situação da Petrobras, como explicar o restante da desproporção mencionada (de quase quatro vezes)? Evidentemente, uma parte adicional desse desvio pode ser explicada pelo mau momento da economia nacional e pelo ambiente de negócios brasileiro, que carrega em seu âmbito um clima geral de baixa credibilidade e de falta de confiança. Essa parcela não pode ser calculada com precisão, mas pode ser estimada, inicialmente, como sendo bem menor do que o restante da desproporção que dependia de explicação. Para os efeitos simples pretendidos no presente tópico, podemos admitir, com alguma segurança, que a diferença média de performance entre os dois mercados deve se situar em uma faixa da ordem da metade do desvio total. Mas, nesse caso, qual ou quais fatores poderiam estar produzindo esse efeito de desvio entre os indicadores, que neste raciocínio simplificado estimamos como sendo alguma coisa da ordem de 50% desfavoráveis ao Brasil?


Acredito que o desvio remanescente mencionado no parágrafo antecedente está diretamente relacionado à precificação corrente das ações nos dois mercados. Em termos mais simples, ou as ações das empresas norte-americanas estariam muito "caras" ou, alternativamente, as ações das empresas brasileiras estariam muito "baratas". Pessoalmente, acredito que o resultado observado atualmente decorre da atuação simultânea das duas condições extremas mencionadas: o valor a mercado das empresas norte-americanas está um pouco elevado e o valor a mercado das empresas nacionais está baixo.


O que me interessa concluir é que as forças e movimentos gerais da economia de mercado agiriam, naturalmente, para fazer com que os dois indicadores viessem a convergir após algum período e as empresas brasileiras passassem a ser cotadas com a mesma lógica de precificação das norte-americanas, na busca de uma posição de equilíbrio estável que poderia envolver diversas variáveis, incluindo a cambial e a atração de capitais para o pólo com preços mais favoráveis. Mas, se esse seria o fluxo natural do movimento econômico, por que ele ainda não se manifestou na necessária intensidade? Entendo que esse fluxo natural está sendo impedido ou retardado pela superveniência de um fenômeno mais amplo: a aversão atual dos investidores estrangeiros (e nacionais) pelo mercado brasileiro e o clima de desconfiança na nossa organização política e econômica. São esses os verdadeiros adversários que precisamos enfrentar com rapidez e competência, se quisermos equalizar as oportunidades de negócio entre o nosso país e as nações mais desenvolvidas.

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