Dificuldades na Comparação do PIB (2)

Publicado em 13 maio 2014

1 comentários

No tópico antecedente deste blog, e sob esse mesmo título, iniciei um exame resumido dos conceitos embutidos no cálculo do PIB anual de cada país ou região e antecipei que daria seqüência a este assunto com uma abordagem mais detalhada acerca da metodologia utilizada pelo Banco Mundial, baseada no critério da "Paridade de Poder de Compra (PPC)".


De maneira bem simplificada, toda a nova base conceitual decorre do fato, facilmente observável, de que um mesmo padrão monetário globalizado (o assim chamado dólar internacional) não tem o mesmo poder de compra em todos os países, variando bastante entre eles. Ou seja, com a mesma quantia expressa em dólares norte-americanos, podem ser adquiridas quantidades muito diferenciadas de bens ou serviços nos variados países. Naqueles onde a mão de obra é mais abundante e pior remunerada, por exemplo, pode ser comprada uma quantidade maior de bens e serviços que dependem muito desse insumo (serviços pessoais, manufaturas artesanais, agricultura familiar ou coletiva, etc.). Da mesma forma, com a mesma quantidade de dinheiro (dólar internacional) pode ser comprada uma quantidade maior de combustível para veículos naquelas regiões onde esse recurso natural é mais abundante e barato. Isso vale para quase todos os itens que compõem a cesta de compras dos consumidores dos diversos locais. Portanto, o PIB, mesmo que continue a ser expresso na mesma unidade monetária padrão, deveria ser ajustado ao seu poder de compra em cada país ou região (ou, simplificadamente, ao custo de vida em cada um deles). Para isso, tiveram que ser calibradas e estabelecidas diferentes taxas de conversão, que afastam-se, em maior ou menor intensidade, das respectivas taxas oficiais de câmbio.


O estudo recém divulgado pelo Banco Mundial, em que foi aplicada essa metodologia alternativa, trouxe substancial e surpreendente variação frente os resultados tradicionalmente obtidos. O PIB global, por exemplo, subiu dos US$ 70 trilhões anteriormente estabelecidos, para o patamar de US$ 90 trilhões. Conseqüentemente, a renda per capita média mundial, evoluiu de US$ 10.500,00 para US$ 13.500,00 pelo novo critério. Analogamente, o PIB do Brasil, estimado pelos métodos tradicionais em US$ 2,5 trilhões (3,6% do PIB mundial) passou, pelo novo critério, a US$ 2,8 trilhões (3,1% do PIB mundial). Ao mesmo tempo, a renda anual média do brasileiro evoluiu de US$ 12.874,00 para US$ 14.639,00 com a mudança do método de cálculo.  Ou ainda, contribuímos com 57% da formação do PIB na América Latina.


Apenas para completar esses exemplos, cumpre destacar o aumento significativo do PIB da China, que, pelo novo critério e apesar de ser um país muito mais pobre, passou a ter um agregado total quase igual ao dos EUA. Ainda com o mesmo propósito, vale mencionar, também, que os 34 países que constituem a OCDE reduziram a sua participação no PIB mundial de quase 60% para pouco mais de 49% e que os BRICS já alcançam, em conjunto, 30% da riqueza global computada com o novo critério.


Quero concluir essa breve análise com o registro de alguns pontos que julgo importantes, principalmente diante do hábito, cada vez mais difundido entre nós, de comparações automáticas, apressadas e simplificadas entre o PIB brasileiro e o de outros países em estágio diferente de desenvolvimento econômico. A variação do PIB, de um ano para o outro, geralmente expressa em percentual de crescimento ou de recessão, entre países emergentes de um lado, e países desenvolvidos, de outro, embora tenha alguma importância comparativa, embute uma série de armadilhas que merecem ser corretamente consideradas.


Por exemplo, as despesas feitas pelo governo federal no importantíssimo combate às epidemias (incluindo a Dengue em que são aplicados anualmente cerca de R$ 1,2 bilhão) são computadas no PIB brasileiro (salários, aluguéis, aquisição de remédios, transporte, etc.). Países como a Suíça e a Noruega, que estão livres dessas doenças, não aumentam o seu PIB com esse tipo de despesa, mas, nem por isso, estariam pior situados do que nós quando examinado o nível de conforto, segurança e bem-estar oferecido aos seus cidadãos nesse particular, ou seja, pela simples comparação do PIB e das dotações. Analogamente, países que já dispõem de ampla e eficiente infraestrutura não costumam ter despesas significativas a esse título na formação dos respectivos PIBs, contando muito mais com aplicações em atividades produtivas de retorno imediato. Mas, em casos como o do Brasil, ainda temos que contar, obrigatoriamente, com as despesas em infraestrutura como parcela preponderante na formação do PIB.


Em resumo, devem ser evitadas as comparações excessivamente simplificadas e diretas entre as taxas de crescimento do PIB apresentadas pelos países já desenvolvidos e pelos países emergentes. Percentuais menores apresentados pelos primeiros podem ser muito mais significativos e importantes do que taxas eventualmente maiores que venham a ser apresentadas por países que ainda precisam recuperar o atraso acumulado.  Isso, para não mencionar o valor absoluto desse crescimento em grandes economias, mesmo quando o percentual é menor ou igual ao nosso.

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1 comentários para "Dificuldades na Comparação do PIB (2)"

Rodrigo Magalhães
Rodrigo Magalhães disse: 23 maio 2014
Muito interessante o assunto, e abordado de forma lúcida e clara

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