Economia Chinesa no Topo?

Publicado em 05 março 2013

10 comentários

Um número cada vez maior de pessoas e instituições, incluindo jornalistas especializados, economistas e agências supranacionais, tem se alinhado com a opinião de que a China alcançará o posto de maior economia nacional do planeta, lugar ocupado, atualmente e com bastante folga, pelos EUA (PIB duas vezes superior ao chinês). Para todas essas pessoas e instituições, a troca de posições entre as duas potências seria inexorável e as opiniões divergem apenas quanto ao tempo necessário para que isso aconteça. Alguns apostam num horizonte mais próximo, inferior a uma década, considerando uma possível e significativa diferença de performance entre as duas economias, no ambiente de crise financeira internacional remanescente. Outros admitem um prazo bem mais longo, até meados do século, por conta da grande distância que ainda separa os dois gigantes. Mas, segundo essa linha de previsões, a inversão ocorrerá com certeza, mais cedo ou mais tarde.


O crescimento espetacular da economia chinesa nas duas últimas décadas e as dimensões daquele país em termos populacionais e territoriais explicam essa aposta cada vez mais disseminada, mas não garantem o resultado do jogo. Este depende da presença de muitas outras variáveis e da conjunção favorável de alguns fatores mais complexos, mesmo quando se sabe que nenhuma nação tem garantias de preponderância econômica perpétua e que as alternâncias no topo costumam ser mais a regra do que a exceção, ao longo da história. A complexidade dos fatores envolvidos nesse jogo pode ser melhor percebida pelos fracassos de algumas apostas igualmente plausíveis, nas épocas em que foram feitas, do que pela análise das inversões que efetivamente se confirmaram na história econômica moderna. Com efeito, em meados do século passado, as apostas feitas por economistas e agências especializadas, de que a hoje extinta URSS ultrapassaria o PIB dos EUA, chegaram a ser, quase, uma unanimidade. Antes e depois desta, outras apostas igualmente populares acabaram por se frustrar, incluindo as que apontavam para inversões que favoreciam o Japão, a Alemanha e a própria Zona do Euro em seu período inicial. Nada disso aconteceu e, em minha opinião, não acontecerá também, pelo menos num horizonte razoavelmente limitado, no caso da aposta de inversão entre EUA e China.


Sempre acreditei que o fantástico desempenho chinês nos últimos anos não seria, por si só, suficiente para transformar o gigante asiático na maior economia do planeta e que não haverá, durante muito tempo, qualquer ameaça efetiva à supremacia do PIB norte-americano. Essa convicção saiu fortemente reforçada de recente viagem que realizei à China e da observação pessoal que pude fazer sobre a realidade física, econômica e cultural daquele país. Não estou destacando, aqui, alguns empecilhos fortes à continuidade acelerada do crescimento econômico chinês, que já costumam ser observados pelos analistas internacionais, como a heterogeneidade territorial do desenvolvimento (concentrado na borda do Pacífico e virtualmente ausente na vasta região Centro-Oeste) ou a diversidade acentuadíssima entre os ambientes econômicos, rural e urbano. Não quero, também, enfatizar a complicadíssima questão das amplas deficiências nos sistemas de educação e saúde e, nem, tampouco, reiterar a conhecida agravante da inexistência de um sistema universal de seguridade social, pensões e aposentadorias (tornando o custeio dos idosos uma obrigação quase irrenunciável dos filhos, no ambiente rural). Mencionei esses exemplos mais conhecidos de distorção econômica e social apenas no propósito de apontar a inevitabilidade de sua correção em prazo razoavelmente curto e compatível com o nível crescente de exigência da população local, circunstância que, além de demandar investimentos significativos, implicará o inevitável encarecimento da mão de obra chinesa (principal fator que tem assegurado a competitividade excepcional dos produtos exportados pela China).


Os problemas exemplificados no parágrafo antecedente não são os únicos gargalos mais frequentemente identificados como empecilhos à continuidade do crescimento acelerado da China. Além deles, costuma ser observada, também, a insustentabilidade do sistema financeiro oficial, altamente concentrado nas instituições governamentais, sendo estas, pouco capitalizadas e incapazes de atender todas as demandas locais por créditos. Essa circunstância acabou por induzir o surgimento de um vasto elenco de "bancos clandestinos" e a inevitável generalização das práticas de agiotagem, ingredientes que nunca conseguiram alcançar configurações estáveis, perenes e sustentáveis em qualquer país ou momento histórico longo.


Sem diminuir a importância de nenhum dos gargalos já registrados, não posso deixar de mencionar o fator que, em minha opinião, constitui-se no impedimento mais grave para que a economia chinesa alcance o almejado primeiro lugar entre as nações e suplante os EUA: a falta de espírito industrioso e de vontade empreendedora da grande maioria da população. Essas qualidades, abundantes nos EUA, são ingredientes essenciais para garantir dinamismo sustentável e continuado às economias nacionais. É bem possível que essa não seja uma peculiaridade dos chineses e que, apenas, tenha resultado do ambiente filosófico, ideológico, cultural e político que prevaleceu no país por tanto tempo. É possível, também, que essa característica venha a ser revertida pelas práticas econômicas postas em curso na China. Mas, na recente visita que fiz àquele país, procurei observar, particularmente, esse aspecto e senti falta dos pequenos negócios (oficinas, padarias, mercadinhos, etc.) onde a semente do empreendedorismo costuma vicejar e crescer. Até que esse traço cultural seja estimulado de forma ampla e estável na China, acho que ela não será uma candidata efetiva ao posto de primeira economia nacional do planeta.

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10 comentários para "Economia Chinesa no Topo?"

Francisco
Francisco disse: 05 março 2013
A China sempre foi a grande potência mundial. É só avaliar a história da humanidade pra concluir isto. O que vemos atualmente é uma reconquista deste posto. Infelizmente às custas do trabalhador, que é um quase escravo, como alguns trabalhadores terceirizados da MRV, não é, senhor Rubem?
Hudson
Hudson disse: 05 março 2013
A China sempre foi a grande potência mundial. É só avaliar a história da humanidade pra concluir isto. O que vemos atualmente é uma reconquista deste posto. Infelizmente às custas do trabalhador, que é um quase escravo, como alguns trabalhadores terceirizados da MRV, não é, senhor Rubem?
Rodrigo
Rodrigo disse: 05 março 2013
A China sempre foi a grande potência mundial. É só avaliar a história da humanidade pra concluir isto. O que vemos atualmente é uma reconquista deste posto. Infelizmente às custas do trabalhador, que é um quase escravo, como alguns trabalhadores terceirizados da MRV, não é, senhor Rubem?
rose
rose disse: 06 março 2013
sabemos q as leis noa favorece o trabalhador , mas isso ajudaria se as empresas valorizassem seus funcionarios que atualemnte nao passam de meros escravos, e quem sem esses meso escrvos nao existiria brasil
rose
rose disse: 06 março 2013
O brasil esta longe de se valorizar
Jeffney Soares
Jeffney Soares disse: 06 março 2013
A China tem, como grande aliada, a mão de obra variada, abundante e barata, fazendo com que seus produtos tenham um valor final baratíssimo perante o mundo globalizado, porém, acredito também que a qualidade de seus produtos reflita esta mão de obra de baixa qualidade e algo que, pode parecer positivo, acaba se tornando um fator negativo, pois, mão de obra barata pode significar salários baixos e, consequentemente, consumo limitado por parte da população. Eu, por exemplo, prefiro, muitas vezes, deixar de comprar o produto Chinês pelo fato de saber que, as chances daquele produto ter sido confeccionado por uma criança de 9 anos extremamente mal remunerada são enormes. Graças à Deus não vivemos isto no Brasil hoje. A mão de obra Brasileira se encontra em um patamar altíssimo em relação ao Chinês e, também, em relação ao resto do mundo, fazendo com o que a economia gire em uma proporção relevante. Tenho como exemplo significativo a própria MRV Engenharia, empresa esta na qual trabalho já à 4 anos. Iniciei nesta conceituada empresa como corretor online, e, mesmo sendo um simples corretor, conseguia usufruir de salários bastante superiores aos salários praticados em muitas outras profissões do mercado, profissões estas que, muitas vezes, exigiram dos profissionais anos e anos de estudo, graduações e pós-graduações. Sendo uma empresa grande, líder em seu seguimento, e atuante em mais de 100 cidades, e JUSTA com o que diz respeito à reconhecer aqueles que mais participam e se destacam em suas funções, pude galgar uma posição de confiança no setor Comercial da MRV no Rio de Janeiro e, pude então, elevar, ainda mais, o meu patamar salarial e o meu nível de qualidade de vida. Hoje, graças à MRV Engenharia e o significativo salário com o qual sou remunerado mensalmente, e sem nunca ter sido pago atrasado um dia sequer, de volta à Belo Horizonte, depois de alguns anos, pude finalmente mudar para o meu novo apartamento, imóvel este que com muito trabalho pude conquistar e pude proporcionar à minha família e aos meus filhos. Cheguei à mencionar que tem até piscina? rsrs
Minha história é uma, e eu sou apenas um! Na MRV Engenharia, hoje espalhados pelo Brasil todo, são milhares e muitos destes milhares possuem histórias semelhantes à minha, ou poderão, ainda, vir à ter! Só o que precisam fazer é vestir a camisa desta fantástica empresa e vestí-la com orgulho, transpirando alegria e dedicação em suas tarefas, e seremos, como a China ou os Estados Unidos, maiores e melhores todos os dias, mesmo em meio à tantos obstáculos, basta acreditarmos! Vejam até onde já chegamos e em tão pouco tempo!! Que Deus continue à nos abençoar e à família MRV. Jeffney Soares
João
João disse: 06 março 2013
simples população chinesa 3x maior q a população norte-americana no PIB é até facil ultrapassar os EUA mas na renda per capita ja é outra história
Ednilson
Ednilson disse: 06 março 2013
O BRASIL TAMBÉM VAI ENTRAR NESSA DISPUTA, MAIS CEDO OU MAIS TARDe
Márcia Oliveira
Márcia Oliveira disse: 07 março 2013
Explorando o seu próprio povo é fácil alcançar o topo da economia mundial.
Fabio Lima
Fabio Lima disse: 07 março 2013
A percepção de baixa qualidade da mão-de-obra chinesa é, principalmente atribuída pela quantidade de produtos copiados e produzidos para atender uma demanda que existe no mundo inteiro, notadamente em países em desenvolvimento, como o Brasil.

Temos de lembrar que, as maiores empresas líderes no mercado de gadgets (por exemplo) tem instalações lá, quer um exemplo? A Foxconn que fabrica os iPhones, iPads, iPods que são produtos de excelente qualidade.

No meu ponto de vista, a grande incógnita é o sistema político e econômico da China (um tipo de socialismo meio aberto ao mercado capitalista) e a grande desigualdade na sociedade do país.

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