Mercado de Capitais à Deriva no Brasil

Publicado em 07 outubro 2014

7 comentários

Já abordei em diversos tópicos deste blog as relações de causa e efeito que estão presentes no quadro de baixo crescimento da economia brasileira nestes últimos anos. Já tive oportunidade, também, de analisar alguns indicadores específicos que ajudam a compreender e a interpretar a nossa realidade econômica. Desta vez, no entanto, quero dar destaque a uma situação que, ao mesmo tempo, é um efeito da política econômica que vem sendo praticada e um impedimento à retomada do ritmo de crescimento no futuro imediato: o estado de deterioração do mercado de capitais no Brasil. Essa situação terá que ser objeto de cuidados imediatos e de atenção prioritária por parte do presidente que vier a ser escolhido pela nação para o exercício do mandato, a partir de janeiro.


Ao contrário do que muitos pensam, o mercado de capitais e seus agentes são peças muito importantes na economia de qualquer nação, sejam elas as plenamente desenvolvidas como os EUA e os principais membros da União Européia, sejam os países em desenvolvimento acelerado, como a China ou a Coréia do Sul, por exemplo, ou sejam ainda os emergentes que pretendem prosperar, como é o caso do Brasil. E mais, não existe economia em crescimento sem um mercado de capitais forte. Portanto, não podemos esnobar essa importantíssima ferramenta de desenvolvimento, que reúne os meios para que o país possa prosperar e crescer.


Todavia, não parecemos estar conscientes disso. No Brasil, o mercado de capitais está à deriva, sem rumo e sem o apoio de políticas de Estado consistentes e firmes. É assustador chegarmos ao mês de outubro sem que, neste exercício, qualquer abertura de capital tenha ocorrido nas bolsas de valores brasileiras, mostrando uma situação que não acontecia há mais de dez anos. Essa é uma situação que não pode ser debitada à crise financeira internacional, já que, nas bolsas de valores dos nossos concorrentes diretos (EUA, Reino Unido e Ásia), já foram realizadas, nos primeiros nove meses do ano em curso, mais de 500 aberturas de capital, robustecendo as respectivas empresas e estimulando os investimentos.


Estamos interrompendo o longo caminho já percorrido pelas bolsas brasileiras no processo de consolidação e de expansão, como agentes de atração de capitais e de facilitação dos investimentos. Com isso, só fazemos por ampliar a disparidade de capitalização entre as bolsas brasileiras (US$ 1,2 trilhão), as norte-americanas (US$ 25 trilhões), as chinesas (US$ 6 trilhões) e as inglesas (US$ 7 trilhões). Mais chocante fica a diferença, quando considerados os volumes diários de negociações: enquanto a média nacional situa-se em US$ 2,8 bilhões, os nossos competidores contabilizam cifras significativamente maiores: EUA = US$ 100 bilhões; China = US$ 20 bilhões e Londres = US$ 8 bilhões. Além disso, enquanto as bolsas norte-americanas agregam mais de 100 milhões de pessoas físicas como investidores, no Brasil, mal conseguimos superar 500 mil investidores individuais. Essa desproporção não guarda a menor relação com o porte da nossa economia.


Um bom começo para o esforço de fortalecimento e de consolidação do mercado nacional de capitais poderia materializar-se em um compromisso público e firme, por parte de ambos os candidatos a Presidente da República, em favor da prioridade que merecerá esse assunto no próximo mandato, incluindo a recuperação imediata das perdas sofridas durante o próprio período eleitoral. Mais do que uma simples sugestão, deixo um apelo à sensibilidade dos próprios candidatos para que atuem, desde já, como os estadistas em que poderão ser transformados, em breve, por vontade da nação. Ou, até mesmo, que adotem a recomendação por simples espírito pragmático, de vez que poderão sair do mercado de capitais os recursos para os investimentos de que o país tanto necessita, como também, para ajudar a equilibrar as próprias contas governamentais.

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7 comentários para "Mercado de Capitais à Deriva no Brasil"

rosana
rosana disse: 07 outubro 2014
Captação de recursos inteligente, que beneficia a todos. A Bolsa de valores, Bovespa e o governo deveriam divulgar de forma intensa ,direcionando para as empresas, incentivando e orientando para abertura de capital e para as pessoas fisicas se encorajarem a investir no mercado de capitais.
José de Souza (Rabelo) Araujo
José de Souza (Rabelo) Araujo disse: 24 outubro 2013
(UM PRESENTE A EQUIPE MRV ENGENHARIA)

O pássaro pousou na árvore, observou atentamente o local e levantou voo. Depois, retornou várias vezes.

Voava longe.--Voltava rápido.--Trazia barro.--Punha no galho.--Utilizava o bico.
Moldava a argila.--Levantava paredes.

Após algum tempo, engenhosa casinha surgiu na árvore. O pássaro não amassou o barro, que já existia em local próprio, mas trabalhou intensamente para construir seu teto.

Não é diferente nossa situação.

Deus nos favorece na vida com a inteligência e os recursos da Natureza, mas à semelhança do joão-de-barro, espera que trabalhemos. ---(psicografada por antônio Baduy Filho)

" MAIS UMA PRIMAVERA, PARABÉNS A EQUIPE MRV ENGENHARIA POR MAIS ESTE ANO. "
Jose Souza Rabelo Araujo
Jose Souza Rabelo Araujo disse: 24 outubro 2013
(UM PRESENTE A EQUIPE MRV ENGENHARIA)

O pássaro pousou na árvore, observou atentamente o local e levantou voo. Depois, retornou várias vezes.

Voava longe.--Voltava rápido.--Trazia barro.--Punha no galho.--Utilizava o bico.
Moldava a argila.--Levantava paredes.

Após algum tempo, engenhosa casinha surgiu na árvore. O pássaro não amassou o barro, que já existia em local próprio, mas trabalhou intensamente para construir seu teto.

Não é diferente nossa situação.

Deus nos favorece na vida com a inteligência e os recursos da Natureza, mas à semelhança do joão-de-barro, espera que trabalhemos. ---(psicografada por antônio Baduy Filho)

" MAIS UMA PRIMAVERA, PARABÉNS A EQUIPE MRV ENGENHARIA POR MAIS ESTE ANO. "
Marcos Almeida
Marcos Almeida disse: 07 outubro 2014
Trabalhei a muito no mercado de capitais. Realmente temos muito pouco participantes no mercado, principalmente pessoas físicas. Acho que nossa cultura atual não nos prontifica a esse tipo de investimento. Creio que os traumas do passado 'Dragão da Inflação' ainda assombra as famílias. Não só ele como o medo do confisco da caderneta.. A inflação galopante nos treinou a comprar rápido pra não pegar o aumento, e o confisco nos treinou a não poupar, logo nos tornou momentâneos. Com poucos investimentos para o futuro, sendo esse o melhor perfil de ganhador no mercado de capitais. O que é preocupante pra mim é nosso endividamento, que vem aumentando com o tempo, sendo que não temos reserva financeira (não sabemos poupar) e não temos uma taxa de juros tão caridosa com devedores. Estamos aprendendo, na marra..
solimar de castro bastos
solimar de castro bastos disse: 07 outubro 2014
a falta de novos investidores tambem é a falta de opções atrativas, deveriam abrir as bolsas para novos produtos como a cachaça
Renato
Renato disse: 08 outubro 2014
Olá Rubens. Talvez não seja tanto uma tarefa para o Executivo, creio eu, senão o legislativo e judiciário. Sobretudo o primeiro, precisa fazer reformas, que não estão na pauta há muito tempo, para ajustar o judiciário às demandas do mercado de capitais. Não há como fortalecer o Mercado de Capitais no estado de insegurança jurídica em que vivemos. Veja que processos de falência se arrastam, vide casos Mapim e Mesbla. Ainda o mau comportamento dos proprietários da massa falida ocasionando prejuízo de credores, fornecedores e ex-funcionários, mas o proprietário nunca paga o que deve, nunca cumpre os acordos assinados e consegue evitar indefinidamente a liquidação dos ativos. Desvia-os para livrar-se do pagamento. Não obstante, a complexidade das leis também prejudica, no Brasil, as relações societárias de CIAs abertas. Óbvio que o investidor assume riscos, mas o risco de ser trapaceado destrói a precificação. Não há governança corporativa na maioria das empresas em bolsa e, não raro, o controlador manipula o preço das ações em detrimento dos minoritários, os tais "pessoas físicas". Veja o caso da Mundial e da LAEP. Falam em independência do BC, e quanto à CVM? O porto seguro das Públicas e de adm. de bens públicos já não existe mais, dadas as práticas bolivarianas da presidenta e equipe. A CVM mantem-se inerte, enquanto os controladores dilapidam a poupança alheia. E quanto aos lucros, quem dá lucro no Brasil? À exceção de um parco grupelho de papéis, os resultados distribuíveis desaparecem à mercê de reservas de lucros infindáveis. Não vou entrar na seara do dividendos para não prolongar ainda mais. Somente lhe pergunto: você confiaria sua poupança a um controlado?
antonio carlos
antonio carlos disse: 08 outubro 2014
Rubens,
Parabéns, sempre enxergando la na frente.
Marcos Ribeiro do Valle Neto
Marcos Ribeiro do Valle Neto disse: 21 outubro 2014
Boa tarde Rubens, parabéns pela iniciativa de abrir essa difícil discussão. Nós realmente precisamos pensar em uma forma de desenvolver nosso mercado de capitais. Mas pensando em todos seus produtos, seja equity, seja renda fixa, ou hibridos.
Concordo parcialmente com o comentário deixado pelo Renato, pois há responsabilidade do Executivo sim. A forma de atuação do BNDES e nossa incapacidade de reduzir a taxa de juros estão matando os instrumentos de renda fixa. Enquanto as pequenas e médias empresas que precisam de apoio ficam abandonadas, as grandes empresas aproveitam os recursos baratos do BNDES.
Tony Costa
Tony Costa disse: 23 fevereiro 2015
A formulação do assunto, e o emprego de números absolutos é interessante, no que diz respeito ao mercado de Capitais.
Todavia, o papel do governo em qualquer outro canto do mundo é meramente regulatório, e em vários casos, um órgão regulatorio estabelece as mudanças necessarias. No caso dos USA seria a SEC. O governo dos USA só interfere Através do estabelecimento de linhas gerais , como foi o caso de Sarbox, referente a transparência administrativa em empresas de Capital Aberto.
Ademais, o típico investidor de classe média e averso ao risco, e não dispoe de informações e uma cultura histórica de apostar no desconhecido. Em poucas sentenças, não e sofisticado. Isto é uma desconfiança arraigada, e até certo ponto justificável , na administração de negócios privados.
Talvez até isto se justifique a fé cega no setor imobiliário como panaceia. Por exemplo, enquanto o mercado de investimento institucional dos USA e Europa joga trilhões no ramo de desenvolvimento de drogas, ramo este, que por sua natureza regulatória e seletiva e altamente arriscado tornando muitas apostas a fundo perdido, o Brasileiro arrisca quando muito numa fábrica de genéricos e compra de imóvel em Miami.
Para explorar mais adiante dentro de sua área de influência , vejamos o setor imobiliário. A quantidade de investimentos em desenvolvimentos comerciais, se compararmos aos USA , e pífia. Um exemplo.....

Uma típica loja de materiais de escritório lá movimenta muito mais do que uma Kalunga aqui, com preços menores e layout, localização e espaço que são praticamente uma ciência em si. Se considerarmos que a não mencionada cadeia opera 3000 lojas ( nenhuma em Shopping Mall ) e a Kalunga atualmente ( pendurada em Shopping Mall ) 150, sendo está a mesma idade da não descrita loja Nos USA podemos perceber que existe aversão ao Risco até mesmo dentro do empresariado.
A maioria destas lojas são operadas em imóveis que pertencem a REITs. E atualmente estão a trazer uma taxa de retorno de capitalização líquida de 8-10% anuais. Isto é fartamente divulgado.
Strip Malls já existem há mais de 50 anos nos USA. Aqui, estão começando a descobrir a pólvora.


Aliás, o conceito não seria difícil de se assimilar, e quiçá , traduzir. Veja o caso de super lojas de materiais da construção. Visibilidade, ampla metragem. Que peculiarmente se desenvolveram paralelamente à Lowes e Home Depot.
Se vc estabelecer esta correlação , pode se extender o conceito e ampliar oportunidades neste setor ( Mass merchandising , hobby , vestuário ), porém há que se investir em tais edificações.
Não temos uma cultura de inovação, excelência , e risco. Ficamos sempre à espera do que os outros irão fazer. Para cópia los. Depois de 50 anos.
Bob Tasca, dono de concessionárias Ford/Lincoln/Mercury dizia .....
" there are people who bet on the come , and there are people who bet on the came. The former runs risks but reap the greater rewards. The latter always hold last year\'s merchandise that can\'t get sold, unless deep discounted ".

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