Mitos do Desperdício na Construção Civil

Publicado em 18 abril 2013

9 comentários

É comum que algumas afirmações continuem a ser repetidas, mesmo quando não são mais verdadeiras ou, pelo menos, quando já não correspondem à regra geral ou à tendência mais frequente. Este é o caso do "desperdício" na Construção Civil. Por força do hábito ou por falta de uma leitura atualizada e esclarecida da realidade prática, o noticiário jornalístico e, até mesmo, algumas publicações de caráter técnico continuam a repetir, como se fosse verdadeiro, o mito de que as construtoras nacionais desperdiçam cerca de 30% do material que entra nos canteiros de obras. Para realçar o impacto desse mito, a informação costuma ser apresentada, às vezes, na forma equivalente: "o material consumido na edificação de três moradias seria suficiente para a construção de uma unidade adicional". Ou ainda: "sai dos canteiros, na forma de entulho desperdiçado, cerca de um terço do material adquirido para a construção habitacional brasileira". Essas informações já não são verdadeiras. Aliás, índices desse tipo estão muito longe daqueles observados na nossa realidade atual.


A Construção Civil nacional vem passando por um processo de intensa modernização, conforme já tive oportunidade de destacar em outros tópicos deste blog, inclusive naquele mais recente, que abordou os aspectos do sistema descrito como "construção industrializada". Na última década, as grandes construtoras brasileiras, notadamente aquelas especializadas no segmento habitacional, assimilaram os conceitos internacionais de competitividade e sustentabilidade e passaram a adotar processos e métodos que não admitem mais o desperdício e a baixa produtividade do sistema artesanal e improvisado que existia anteriormente.


Na realidade, com a natural variação entre as diversas empresas, passaram a ser progressivamente adotados no país, os conceitos provenientes do movimento identificado como "Lean Construction" (Construção Enxuta), formulado originalmente no início da década de 1990 e que, por sua vez, incorporava a revolucionária conceituação introduzida na indústria automobilística pelo "Sistema Toyota de Produção". Hoje, a maioria das grandes construtoras brasileiras utiliza sistemas avançadíssimos de concepção, planejamento, projeto e controle da produção para o conjunto de seus empreendimentos, empregando materiais, insumos e processos padronizados, de forma a evitar, principalmente, o retrabalho e o desperdício.


Nesses métodos de gestão moderna, os variados canteiros de obras e os diversos centros de fornecimento de insumos costumam ser controlados integradamente em rede informatizada e com "software" especializado. Por conta disso, há como se fazer um balanço permanente, quase em tempo real, de todos os fluxos de materiais, por exemplo, com a identificação precisa das quantidades demandadas em cada canteiro ou estágio de obra e, consequentemente, com a determinação dos eventuais desperdícios e quebras (estes aferidos, também, pelo controle rigoroso dos descartes e retiradas finais de restos e resíduos).


No caso particular da MRV, os nossos indicadores apontam valores muito distintos daqueles que constituem o mito do desperdício abordado no presente tópico e, por isso, vou usá-los como exemplificação geral da realidade observada atualmente no setor. De fato, a performance da nossa construtora atingiu, também nesse particular, uma situação muito boa. No conjunto dos nossos canteiros e durante o exercício de 2012, o desperdício total de materiais foi inferior a 1% em volume e menor do que 3% em valor agregado. Foram resultados excepcionalmente bons, mas que podem e devem, ainda, ser otimizados nos próximos exercícios.

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9 comentários para "Mitos do Desperdício na Construção Civil"

Francisco Ricardo
Francisco Ricardo disse: 18 abril 2013
Bom dia Rubens Menin,

então a intenção da MRV é ter seu desperdício de materiais em nível zero? Como seria o processo para o alcande desse objetivo?
Francisco
Francisco disse: 18 abril 2013
Outro mito que insistem em declarar na imprensa é o de que não existe bolha imobiliária no Brasil.
Hudson
Hudson disse: 18 abril 2013
Outro mito que insistem em declarar na imprensa é o de que não existe bolha imobiliária no Brasil.
Rodrigo
Rodrigo disse: 18 abril 2013
Outro mito que insistem em declarar na imprensa é o de que não existe bolha imobiliária no Brasil.
Rafael Tello
Rafael Tello disse: 25 abril 2013
Rubens, estes dados são públicos? É possível ter acesso a eles?

Talvez nas construtoras, o novo desafio seja reduzir o resíduo incorporado às obras. Como a MRV está lidando com isso?
Almir Wagner
Almir Wagner disse: 04 maio 2013
Olá Rubens
Um pergunta neste contexto: a tarefa de reboco (emboço) em paredes de alvenaria é, até onde eu sei, totalmente manual, certo!! Pergunto: já existe alguma tecnologia (equipamento ou procedimento) que permita a aplicação de massa de cimento numa parede de forma automatizada!! Pesquisei na internet e encontrei somente geringonças que, a meu ver, não agilizam muita coisa. A minha dúvida é se é viável investir tempo e dinheiro na busca de uma solução para este fim.

Abraço

Almir Wagner
WAGNER
WAGNER disse: 05 maio 2013
acredito eu... que a construção civil seria necessário espelha na indústria /integração do colaborador / avaliar e certificar-se do grau de conhecimento do profissional NA CONSTRUÇÃO CIVIL. ACREDITO QUE TEMOS UM SERIO PROBLEMA NESSAS CONTRATAÇOES...POIS O GRAU DE ENSINO E MUITO BAIXO NA CONSTRUÇÃO CIVIL COMPARANDO COM OS CONTRATADOS DA INDUSTRIA.NA INDUSTRIA E PRATICAMENTE FORÇADO A TER CURSO PROFICIONALIZANTE PELO SENAI!COMPARA O DESPERDICIO DOS MERCADOS PARALELOS AO QUE SE DIZ A RESPEITO DA MATERIA PRIMA. POR FIM EDUCAÇÃO E O CAMINHO...
Rubens Menin
Rubens Menin disse: 22 maio 2013
Agradeço a participação no blog, Wagner.
wagner.vitorino
wagner.vitorino disse: 05 maio 2013
acredito eu... que a construção civil seria necessário espelha na indústria /integração do colaborador / avaliar e certificar-se do grau de conhecimento do profissional NA CONSTRUÇÃO CIVIL. ACREDITO QUE TEMOS UM SERIO PROBLEMA NESSAS CONTRATAÇOES...POIS O GRAU DE ENSINO E MUITO BAIXO NA CONSTRUÇÃO CIVIL COMPARANDO COM OS CONTRATADOS DA INDUSTRIA.NA INDUSTRIA E PRATICAMENTE FORÇADO A TER CURSO PROFICIONALIZANTE PELO SENAI!COMPARA O DESPERDICIO DOS MERCADOS PARALELOS AO QUE SE DIZ A RESPEITO DA MATERIA PRIMA. POR FIM EDUCAÇÃO E O CAMINHO...

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