O Estado Brasileiro e o Acidente em Mariana

Publicado em 20 novembro 2015

19 comentários

A sociedade brasileira ainda acompanha perplexa e penalizada os acidentes com as barragens de rejeito rompidas no município mineiro de Mariana (a primeira Capital do Estado de Minas Gerais) e suas terríveis conseqüências na bacia hidrográfica do Rio Doce. Por conta da dimensão dos prejuízos, o noticiário nacional e mundial tem dado grande destaque ao tema. Por ele, ficamos sabendo que existem mais de trezentas barragens de características semelhantes só no Estado de Minas Gerais e outras tantas no resto do país. Ficamos sabendo, também, que existem apenas quatro funcionários especializados no órgão competente (o DNPM – Departamento Nacional da Produção Mineral) para monitorar o desempenho dessas estruturas e atestar-lhes a higidez. Essa é uma missão impossível para tão pouca gente especializada, mesmo considerado o regime de rodízio com que o trabalho parece ser desenvolvido.


As deficiências na estrutura técnica e administrativa do Estado brasileiro não se concentram apenas no licenciamento e fiscalização das barragens de rejeito, embora essa tenha sido a surpresa do momento. O brasileiro comum sabe, por experiência própria, que as coisas também não marcham adequadamente em outros serviços importantes, principalmente nos da saúde, da educação e da segurança, que lhe afetam mais diretamente a vida cotidiana. Parece muito difícil entender essa situação, quando as mesmas notícias da imprensa apontam a existência de quase quatro milhões de funcionários no serviço público brasileiro e que, apenas no período de 2003 a 2012, o governo federal teria contratado quase 180 mil novos trabalhadores. As mesmas fontes da mídia diária mostram que, se somados os funcionários públicos estaduais (quase quatro milhões) e os municipais (perto de sete milhões), o corpo do pessoal à disposição dos governos alcança mais de 7% da população brasileira total.


Mesmo num exame mais ligeiro, fica mais ou menos evidente a possibilidade de que exista um desequilíbrio importante na distribuição e alocação desse grande efetivo de pessoal. Se essa for a realidade, precisamos racionalizar isso com urgência. Não tem cabimento a falta de técnicos especializados para fiscalizar a segurança das barragens e de outras obras de engenharia, enquanto existir excesso de efetivo (ainda que com perfil distinto) em outras áreas da administração. A importância de um exame acurado desse assunto fica mais potencializada, ainda, no quadro geral da crise econômica em curso. Atenção administração: mãos à obra. Vamos confirmar a existência desse eventual desequilíbrio funcional e, caso verdadeiro, ajustar os meios e os contingentes de funcionários, de acordo com as grandes prioridades nacionais. Não podem faltar técnicos, equipamentos e outros meios para o licenciamento adequado e para o monitoramento eficaz das barragens de rejeitos.


Por oportuno, não gostaria de deixar sem comentar o fato de que considero o Rio Doce um presente valioso dado ao país e à natureza, proveniente das entranhas de Minas Gerais, estado onde ocorre a gênese da maior parte das suas vazões, antes que elas alcancem o Espírito Santo e, finalmente, o oceano. Registrei isso apenas para situar a circunstância de que, quando esse mesmo presente transforma-se, por iniqüidade ou displicência, em castigo desastroso, a organização eficiente das mitigações e do seu custeio competem, também e principalmente, à administração federal e a toda a nação.

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19 comentários para "O Estado Brasileiro e o Acidente em Mariana"

Andres Mendez
Andres Mendez disse: 20 novembro 2015
Não vivemos em um estado mais parece uma Zona
Rodrigo Cabral
Rodrigo Cabral disse: 20 novembro 2015
Bem observada a discrepância entre a alocação do funcionalismo público!
Lázaro de Melo
Lázaro de Melo disse: 22 novembro 2015
Boa tarde, Rubens

Perplexidade e tristeza absoluta.

O Rio Doce é muitos rios brasileiros, onde nossa cultura navega. Além do próprio Doce e desta tragédia existe outra mais dura ainda: Acho que nas grandes e médias cidades brasileiras não existem mais rios, riachos e nascentes propícios a matar a sede ou acolher os peixes.As causas sabemos, os riscos nós conhecemos, a solução é possível há décadas e Estado e Sociedade têm os meios para corrigir isso, mas...
Desculpe meus lamentos, é que tá doendo mesmo.


Saudações,
Lázaro
Andres Mendez
Andres Mendez disse: 28 janeiro 2016
Basta ver o RIO TIETE 150 Km acima de SP e olhar o mesmo rio no Canindé Algo deve ser feito aproveitando o desastre, para evitar novos fracassos da nossa sociedade
O Poder publico pode fazer muito, mas cabe as comunidades cuidar do patrimonio ambiental, em primeiro lugar, e exigir das autoridades o mesmo. Participação mais ativa da sociedade vai ajudar a evitar novos problemas. Ativismo social sempre é melhor que ativismo politico
emerson
emerson disse: 23 novembro 2015
O estado brasileiro é sem dúvida o maio entrave ao desenvolvimento desse país!!!
João Campos
João Campos disse: 23 novembro 2015
Muito bem comentado, Sr Rubens
Estamos diante de uma grande decisão.
O problema não está somente na negligência,corrupção,conflitos de agentes. Isso são sintomas que algo está muito errado.
Precisamos rever nosso modus operandi. Ver o que realmente importa pra nossa sociedade. E o mais importante quem irá nos liderar.
Isso é uma decisão, do coletivo para o coletivo.

Não irei mais me delongar.

Tomara que estás discussões tornem-se um sopro de esperança
Rubens Menin
Rubens Menin disse: 23 novembro 2015
Agradeço sua participação no Blog, João Carlos.
João Carlos Campos
João Carlos Campos disse: 23 novembro 2015
Muito bem comentado, Sr Rubens
Estamos diante de uma grande decisão.
O problema não está somente na negligência,corrupção,conflitos de agentes. Isso são sintomas que algo está muito errado.
Precisamos rever nosso modus operandi. Ver o que realmente importa pra nossa sociedade. E o mais importante quem irá nos liderar.
Isso é uma decisão, do coletivo para o coletivo.

Não irei mais me delongar.

Tomara que estás discussões tornem-se um sopro de esperança
Herbert de Lima e Silva
Herbert de Lima e Silva disse: 25 novembro 2015
Nossos empresarios, governantes e povo entrega produtos primarios por empregos e alguns impostos.
Ficam aqui os rejeitos ocupando extensas areas degradas, água e meio ambiente poluidos e o imenso potencial de desgracas anunciadas. Até quando?
Penso que proibir a mineração nesse formato forçaria a utilização de tecnicas que proteja o ambiente e exportar produtos com valor agregado, mesmo que por algum tempo tenhamos perdas de empregos e divisas.
Andres Mendez
Andres Mendez disse: 27 janeiro 2016
Mas se a empresa tem o estado como acionista fica prejudicada uma medida para proteger outros intereses alheios a produção
O Problema está na falta de planejamento do estado porque nossos politicos pouco se importam pela poluição dos ambientes
A organização da nossa sociedade deve assumir a responsabilidade e todos os riscos que corremos quando se entrega uma atividade como esta para aventureiros que buscam apenas o lucro e acham que o prejuízo ambiental está longe deles que moram na Europa
clenio menin
clenio menin disse: 03 dezembro 2015
muito bem citado parente
jose luiz pinheiro lourenco
jose luiz pinheiro lourenco disse: 08 dezembro 2015
Como todas as tragedias que ocorrem no Brasil,logo que lemos ou ouvimos é : "Esta era uma tragedia anunciada".
Por total incompetencia,falta de planejamento e politicas publicas na maioria das vezes equivocadas.
Lendo seu texto ,é incompreensivel aceitar que um orgao de tao grande importancia para economía e o meio ambiente de um país existem apenas 4 funcionarios para fiscalizar essas barragens.
Agora,como sempre acontece no Brasil,ministerio público e os outros orgaos do governo tornam público as deficiencias e possiveis falhas na fiscalizacao.
Medidas quanto a isso serao tomadas,mas com certeza conhecendo o nosso país sabemos que infelizmente outras tragedias acontecerao, e se descobrirao fatos semelheantes.
José Roberto Perim
José Roberto Perim disse: 09 dezembro 2015
Os brasileiros tb tem culpa. Às vezes somos omissos, deixamos que empresas que não tem compromisso com a sociedade se intalarem, unicamente em troca de alguns empregos, exploram nossos recursos naturais, faturam o suficiente e vão embora, deixando apenas os rastos e prejuízos em países que não tem controles e normas que regem essas empresas multinacionais.
Ricardo Lacerda
Ricardo Lacerda disse: 10 dezembro 2015
Boa noite obrigado por esse canal e por podermos nos comunicar ,muito triste isso tudo pela ineficácia do estado em não fiscalizar de forma a previnir desastres pois se tivessem uma rotina de segurança isso não teria acontecido,todo desastre e cometido por várias falhas e não uma só ,soma de fatores que irão encadear uma tragedia ,triste tb na recuperação desse fato ,tínhamos condição de pelo menos não chegar ao litoral todo esse rejeito etc,falamos com muitos prefeitos e até o telefone do responsável por essa área que não atendeu mais de 12 dias tentando e por dia mais de 20 ligações ,veja o nosso site e a tecnologia que temos para atender a essa emergência ,agradeço desde já a oportunidade e espero que um dia podemos mostrar nosso trabalho abraços
Kleber Rodrigues
Kleber Rodrigues disse: 11 dezembro 2015
O seu comentário receberia nota 100 se também colocasse que, mesmo com essa falta de técnicos para realizar a fiscalização, caberia em primeiro plano à empresa SAMARCO realizar as checagens para saber se a barragem estaria estável ou não.

Os lucros para os acionistas vão estar sempre em primeiro lugar.

Isso pode ser verificado pelos valores segurados pela empresa, um muito grande para os lucros e um pequeno para desastre ambiental.

A responsabilidade TOTAL por esse desastre é da empresa.
Jairo Rios Brandao
Jairo Rios Brandao disse: 22 dezembro 2015
Rio de Janeiro - Há 14 anos, um vazamento de óleo de grandes proporções foi o responsável por mudar o cenário da Baía de Guanabara e contaminar grande parte do ecossistema de mangues no entorno. No 18 de janeiro de 2000, um duto da Petrobrás que ligava a Refinaria Duque de Caxias (Reduc) ao terminal Ilha d\'Água, na Ilha do Governador, rompeu-se antes do raiar do dia, provocando um vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo combustível nas águas da baía. A mancha se espalhou por 40km².
O episódio entrou para a a história como um dos maiores acidentes ambientais ocorridos no Brasil.
O vazamento afetou milhares de famílias que viviam da pesca e de atividades ligadas ao pescado. Na época, a Petrobras pagou uma multa de R$ 35 milhões ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e destinou outros R$ 15 milhões para a revitalização da baía.

Vejam bem: 1,3 milhão de litros de óleo que é biodegradável, flutua ou seja pode ser contido e que provoca sim mortandade de peixes mas que não chega aos pés desse acidente que sepultou o Rio Doce desde Mariana(MG) até a sua foz e ainda vai causar muito dano no mar, sabe-se lá até onde.

Pois bem nesse caso foram 60 milhões de m3, ou 60 bilhões de litros de lama tóxica com amina, amido, ferro, sabe-se lá quantos outros metais (cadê as analises do IBAMA, IEMA, SEMAD, FEAM ?).
Fazendo um cálculo simples descobre-se que o vazamento (em litros) da Samarco/Vale/BHP Billiton é 45.000 vezes maior que o acidente da Guanabara!!!!!!

Agora vamos multiplicar a multa: (35 milhoes +15 milhoes)= 50 milhões de Reais.(Foi a multa aplicada à Petrobras 18 anos atrás).

Então 50 milhões de Reais x 45.000 = 2,25 Trilhões de Reais

Essa é a multa a ser aplicada a Samarco/Vale/ BHP para se ficar na mesma proporção com o acidente da Baia da Guanabara.

(isso desconsiderando a Inflação)
Paulo felletti
Paulo felletti disse: 23 dezembro 2015
Muito bem colocado SE Rubens. O Estado como um todo é desgovernado por incompetência administrativa, indicações partidárias de políticos incompetentes. O corpo de servidores ás vezes técnicos ao relento sem recursos como podemos observar na saúde hospitais que dispõe de equipamentos última geração encaixotados a anos.....e os PÁ não dispõem de luvas descartáveis. Policiais totalmente despreparados, muitas vezes tornando-se mais perigosos que os próprios criminosos dado a tensão e falta de treinamento coordenação de comando. Fico estarrecido diante desse desastre. E o pior, o Estado não se considera minimamente responsável diante da tragédia, e suas ações pós tragédia pífias. Resume-se ao cunho administrativo na esfera do Governo e do Judiciário a MULTAR recolher aos cofres onde se sabe que oi destino dos valores são desconhecidos. Veja-se o desastre de Teresópolis. Que ação foi tomada pelo Estado pós tragedia??? Vivemos a mercê do abandono e esse funcionalismo fantasma inativo que leva 50% da arrecadação sem uma ação eficaz de serviço. Que futuro nos espera???
João Duarte
João Duarte disse: 07 fevereiro 2016
Tudo que foi dito se resume em: incompetência na gestão pública.

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