A Construção Civil e o PIB

Publicado em 03 dezembro 2012

5 comentários

O fraco desempenho da nossa economia no terceiro trimestre deste ano (crescimento de apenas 0,6% em relação a idêntico período de 2011) já está gerando novas revisões para o aumento do PIB brasileiro em 2012, apontando para uma possibilidade concreta de uma taxa anual da ordem de 1,0% ou menos. É um número extremamente baixo diante das expectativas iniciais do governo (4,5%) e do potencial do país, condição agravada por justapor-se a outro crescimento medíocre, observado em 2011 (2,7%). Se esse processo de quase recessão não for revertido a curtíssimo prazo, a sua continuidade poderá comprometer os bons resultados que vínhamos colhendo no crescimento da renda e do consumo, assim como na sustentação de um bom nível de empregabilidade (índice de desemprego inferior a 6,0%).

Em outros tópicos deste blog, já tive oportunidade de apontar as principais razões pelas quais o nosso PIB não vem crescendo nas taxas possíveis e desejáveis. Examinei, em mais detalhe, os gargalos que precisam ser enfrentados com persistência e esforço, incluindo a nossa infraestrutura deficiente e deteriorada, a falta de investimentos, a carga tributária estratosférica e o excesso de burocracia, bem como outros fatores que acabam por agravar o, assim chamado, "Custo Brasil". Volto a esse tema, no entanto, para abordar a questão da construção civil e das suas potencialidades como remédio estratégico, nesse quadro de agravada e perigosa emergência.

A cadeia produtiva completa da construção civil é responsável pela formação de 15,5% do PIB brasileiro e, portanto, qualquer crescimento robusto desse setor repercute, imediatamente e de forma significativa, no agregado nacional. Além disso, trata-se do setor que mais emprega no país, representando 6% do total de pessoal formalmente ocupado no Brasil. Ou seja, qualquer esforço concentrado para aquecer o setor da construção civil, além de produzir bons reflexos no crescimento do PIB, representará, também, um fator adicional para garantir o nível atual de ocupação da força de trabalho.

Precisamos desse remédio estratégico e emergencial? A resposta afirmativa a essa questão não decorre apenas da sua contribuição para o crescimento da economia e para a geração de empregos. Antes de tudo, precisamos disso como instrumento do desenvolvimento econômico e da inclusão social. Atualmente, mal alcançamos o patamar de construção de 500 mil novas habitações por ano em todo o território nacional, apesar dos esforços recentes, materializados no Programa "Minha Casa, Minha Vida". A estrutura operacional existente no setor e as bases concebidas para o programa oficial de incentivo permitiriam, sem grande esforço e em tempo relativamente curto, elevar esse número para cerca de 1,2 milhão de novas moradias construídas por ano. E esse ainda seria um número pequeno diante das demandas representadas pela formação de 1,5 milhão de novas famílias a cada ano e da existência de um déficit habitacional estimado em mais de 8 milhões de moradias.

Podemos disponibilizar esse remédio estratégico e emergencial? Em princípio sim, com a ativação de providências igualmente estratégicas e emergenciais. Tradicionalmente, os investimentos nesse setor vêm sendo feitos com capitais nacionais que poderiam responder ao desafio, desde que removidos os pontos atuais de desinteresse e oferecidas as devidas garantias de continuidade e segurança jurídica. Além disso, haveria que se ativar um amplo programa, também estratégico e emergencial, de redução da burocracia e dos empecilhos administrativos. Em outro tópico deste blog, apontei como exemplo dos absurdos empecilhos atuais o fato de que o prazo médio para o licenciamento de obras e para aprovação de projetos alcança três anos e o impacto financeiro desses requintes de burocracia já representa 10% do preço de venda cobrado aos compradores finais. Podemos começar por aí, para gerarmos renda, preservarmos empregos e contribuirmos para o crescimento do PIB.
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5 comentários para "A Construção Civil e o PIB"

Daniano penafaorte
Daniano penafaorte disse: 03 dezembro 2012
O Brasil não pode desacelerar os investimentos na construção civil, pelo contrário tem que aprimorar para construir um programa habitacional eficiente e permanente.
Daniano Penaforte
Daniano Penaforte disse: 03 dezembro 2012
O Brasil não pode desacelerar os investimentos na construção civil, pelo contrário tem que aprimorar para construir um programa habitacional eficiente e permanente.
Daniano Silva
Daniano Silva disse: 03 dezembro 2012
O Brasil não pode desacelerar os investimentos na construção civil, pelo contrário tem que aprimorar para construir um programa habitacional eficiente e permanente.
José de Castro Zambaldi
José de Castro Zambaldi disse: 03 dezembro 2012
No meu entender,para o brasil manter um crescimento uniforme,necessitamos de uma reforma geral,começando pela reforma política.O nosso sistema politico induz a corrupção(é um tal de molha a mão de um molha a mão do outro para se aprovar alguma coisa).Quando se tenta fazer alguma obra de infra estrutura é um tal de empargar e coisa não anda é precíso mudar esta situação.O povo Brasileiro tem que aprender votar,quando se vota no Presidente,Governadores e Prefeitos é necessário votar em seus Senadores,deputados federais e estaduais e Vereadores que os apoia,se não a coisa não anda.Fico por aqui,tem muito coisa para falar.
Rodrigo Dultra
Rodrigo Dultra disse: 04 dezembro 2012
Parece que o governo está se dando conta disso e anuciou hoje pela tarde um pacote de medidas com o objetivo de estimular os investimentos da construção civil. "Estimular a indústria da construção civil é estimular o investimento do país", disse hoje o ministro Guido Mantega.

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