A Engenharia e seu Ensino

Publicado em 14 fevereiro 2013

8 comentários

Muito se tem dito sobre a questão da educação no Brasil e, não poucas vezes, sobre o ensino da Engenharia em particular. Estamos despertando, ainda que tardiamente, para a importância do tema. De uns tempos pra cá, o assunto passou a ser abordado com frequência na mídia, nas manifestações políticas e nas próprias conversas de estudantes, professores, pais de família e empregadores. Tenho lido e ouvido muita coisa interessante sobre isso. Mas, também, e infelizmente, muito espaço tem sido gasto com opiniões, abordagens, sugestões de providências, propostas de diretrizes e, até mesmo estudos oficiais, que não estão em sintonia com a realidade das situações que observo diariamente na minha vida de engenheiro e no comando de uma empresa de grande porte, centrada na atividade da Engenharia.

Recentemente, fui provocado para uma reflexão mais objetiva, prática e abrangente sobre toda essa questão por um instigante artigo, publicado nos EUA, com enfoque global, sob o título "As Universidades Norte-Americanas Podem Permanecer no Topo?", elaborado por Michael Silverstein e Abheek Singhi, membros do prestigioso Boston Consulting Group - BCG. A partir dessa referência inicial, pude buscar outras indicações que me permitiram formar idéias que se ajustavam melhor à realidade que observo diariamente. Organizei os pensamentos, mudei alguns paradigmas, abandonei muitos mitos e enxerguei os pontos que, efetivamente, me parecem os mais importantes. E decidi compartilhar esses pensamentos e conclusões neste blog, na forma de uma série especial, que inicio com o presente tópico, na expectativa de aduzir alguma contribuição prática, calibrada pela observação da nossa realidade.

A primeira questão importante a ser considerada é o papel da Engenharia e dos engenheiros no processo que conduz ao desenvolvimento e à prosperidade das nações. A existência farta de engenheiros, tecnólogos e de outros perfis profissionais semelhantes é um ingrediente essencial para alavancar e sustentar o desenvolvimento econômico e social dos respectivos países e regiões, incluindo a fração daqueles, que não atua diretamente nas funções específicas da Engenharia. Essa última é uma característica importante no processo e que, nem sempre, tem sido bem compreendida. De fato, o perfil acadêmico dos engenheiros, incluindo o hábito do pensamento lógico, a familiaridade com a matemática, com a física e com outras matérias correlatas, assim como as habilidades no uso da tecnologia, tornam os profissionais com esse tipo de formação especialmente aptos para o exercício eficiente de outras funções adjacentes à Engenharia, nas áreas de gestão, de finanças, de administração, de gerência e de planejamento, notadamente quando eles têm a oportunidade de complementar o seu conhecimento básico com o aprendizado "on the job".

Destaquei, no último parágrafo, a característica da ampla utilização de engenheiros em outras funções não diretamente ligadas à Engenharia porque, aqui, como em quase todos os países, essa é uma demanda concreta e permanente, além de representar uma efetiva contribuição para a melhoria do nível geral de produtividade e desempenho. Desconsiderar esse campo complementar de atuação ou tratá-lo como um desvio funcional indesejável costuma produzir interpretações equivocadas da realidade. Esse parece ter sido o caso dos polêmicos estudos elaborados pelo IPEA – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, instituição vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, incluindo os consolidados na Edição n° 12 do boletim "Radar". Esses estudos enfatizam a existência de mais de 60% dos engenheiros nacionais fora de suas "ocupações típicas" (consideradas estas, erroneamente, como mais valorizadas pelo mercado) para embasar conclusões igualmente equivocadas de que não haveria déficit no estoque deste tipo de profissional, nas projeções feitas para horizontes futuros, caso o desempenho geral da economia se situe na média do crescimento observado nos últimos anos. Políticas de Estado para estimular ou conter o crescimento das vagas oferecidas nos cursos de graduação não comportam o viés ideologizado, corporativista e simplório contido na aposta de que a escassez induzida no estoque de profissionais resultará no aumento dos níveis salariais respectivos, sem prejuízo da sociedade. Se eu for o único dentista habilitado para trabalhar em um país imenso, certamente poderei cobrar mais pelo meu trabalho. Mas, o país ficará sem dentes.

Essas mesmas indicações e referências serão utilizadas novamente nas abordagens de outras questões relevantes que pretendo desenvolver em tópicos subsequentes.
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8 comentários para "A Engenharia e seu Ensino "

Cassiano Selingardi Giongo
Cassiano Selingardi Giongo disse: 14 fevereiro 2013
Saudações

Que o Grande Arquiteto do Universo continue iluminando vossos caminhos;

Que a Luz emanada por ti e sobre ti alcance a mente e o coração de todos os seres humanos que assim necessite;

T.F.A.

Cassiano Selingardi Giongo
Técnico em Segurança do Trabalho
Obra: Parque Rainha Elizabeth - Rio Claro-SP
Murilo Carmo
Murilo Carmo disse: 16 fevereiro 2013
Em relação ao atual panorama do ensino dos cursos na área de engenharia, tem que ser criado algum mecanismo para melhorar a qualidade dos profissionais que estão se formando, já que, com a valorização da área, milhares de novos cursos estão sendo abertos em várias instituições pelo país. Está acontecendo mais ou menos o que aconteceu com o curso de Direito há alguns anos atrás. Os Conselhos de Engenharia (CREA/CONFEA), tem que tomar medidas para avaliar estes novos profissionais, acho que tem que ser feito provas, assim como a OAB faz com os magistrados em Direito, só fornecendo o registro para profissionais realmente qualificados para o mercado de trabalho.
José de Souza (Rabelo) Araujo
José de Souza (Rabelo) Araujo disse: 22 fevereiro 2013
"UMA MENSAGEM,TALVEZ UMA LEMBRANÇA , UMA AÇÃO EFETIVA A VIVER:"
As Histórias verdadeiras o que importa e o resultado do assunto,na vida de Moisés ele gastou 40 anos em volta da cidade que deveria viver e ele não conseguiu,morreu e o seu ideal não cumpriu-se pois qual foi a razão,assunto a pensar;As convivência do dia dia hoje devemos implantar até mesmo como se foce na família ou qualquer ambiente em que vivemos,filhos doentes hospital de acordo com cada necessidade a sua cura até mesmo o eutanásia se assim for necessário,falando em Empresa falamos em 3 gerações em percurso, as vezes o doente não e o bisavôs e nem os avôs e sim OS PAIS e ai como fica os filhos das criação que e criada dia a dia...
José de Souza Rabelo Araujo
José de Souza Rabelo Araujo disse: 22 fevereiro 2013
"UMA MENSAGEM,TALVEZ UMA LEMBRANÇA , UMA AÇÃO EFETIVA A VIVER:"
As Histórias verdadeiras o que importa e o resultado do assunto,na vida de Moisés ele gastou 40 anos em volta da cidade que deveria viver e ele não conseguiu,morreu e o seu ideal não cumpriu-se pois qual foi a razão,assunto a pensar;As convivência do dia dia hoje devemos implantar até mesmo como se foce na família ou qualquer ambiente em que vivemos,filhos doentes hospital de acordo com cada necessidade a sua cura até mesmo o eutanásia se assim for necessário,falando em Empresa falamos em 3 gerações em percurso, as vezes o doente não e o bisavôs e nem os avôs e sim OS PAIS e ai como fica os filhos das criação que e criada dia a dia...
Jose Rabelo
Jose Rabelo disse: 22 fevereiro 2013
"UMA MENSAGEM,TALVEZ UMA LEMBRANÇA , UMA AÇÃO EFETIVA A VIVER:"
As Histórias verdadeiras o que importa e o resultado do assunto,na vida de Moisés ele gastou 40 anos em volta da cidade que deveria viver e ele não conseguiu,morreu e o seu ideal não cumpriu-se pois qual foi a razão,assunto a pensar;As convivência do dia dia hoje devemos implantar até mesmo como se foce na família ou qualquer ambiente em que vivemos,filhos doentes hospital de acordo com cada necessidade a sua cura até mesmo o eutanásia se assim for necessário,falando em Empresa falamos em 3 gerações em percurso, as vezes o doente não e o bisavôs e nem os avôs e sim OS PAIS e ai como fica os filhos das criação que e criada dia a dia...
GEORGE Carvalho
GEORGE Carvalho disse: 23 fevereiro 2013
Necessidade, em um processo de desenvolvimento esta explícito a necessidade de profissionais habilitados, em todas as áreas, com ênfase em engenharia, pela diversidade que o leque que o ramo se mostra necessário.
Questão necessária, para uma abordagem relacionada com as necessidades futuras, até quando, como de conhecimento de todos as necessidades do homem é infinita, aonde contrapondo essa questão a quantidade de matéria prima disponível é finita. Trazendo em questão, a necessidade do homem começar é a pensar sobre a possibilidade de um futuro possível na concepção humana ! ! !
Vitor claus
Vitor claus disse: 26 fevereiro 2013
Sobre a demanda de Engenheiros,vale pontuar que é um problema real e global.Recebi uma informação de uma pessoa que é engenheira e trabalha na montadora Wolks.
Em toda a Europa, há carência de engenheiros e os governos(Cada país) criaram politicas de mediação prontas a facilitar a entrada de engenheiros(Qualquer engenharia) e fisicos em seus países.Na Alemanha um engenheiro não precisa trabalhar em Banco(Como acontece aqui no Brasil)Por que a indústria é forte e prestigia o profissional.
luiz carlos
luiz carlos disse: 01 março 2013
muito tem ainda a ser feito pra que esse gargalo que o brasil estar enfretando por falta de profissionais a demanda tende a crescer mais a formação não corre no mesmo ritimo de crescimento do brasil.estou cursando o tecnico em edificações vejo que a demanda na area tecnica estar com muitas vagas não preenchida, por falta de profissinais.

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