A Engenharia e seu Ensino (2)

Publicado em 21 fevereiro 2013

10 comentários

O estoque de engenheiros em idade ativa no Brasil está adequado, superdimensionado ou insuficiente para as nossas necessidades e pretensões de crescimento, de aumento de produtividade, de incorporação de tecnologias atualizadas e de desenvolvimento socioeconômico? Nos próximos anos, poderemos contar com a insubstituível contribuição desse tipo de profissional nas atividades que podem resultar na prosperidade geral da nação, seja no campo da Engenharia propriamente dita, seja em outras funções complementares igualmente importantes, conforme abordei no tópico antecedente desta série? Essas são questões fundamentais e que merecem um exame mais acurado.


De início, seria interessante saber quantos engenheiros em idade ativa existem atualmente no Brasil, e quantos seremos ao final da década. Essas indagações, aparentemente simples, e que poderiam fornecer os dados básicos para as comparações com as demandas projetadas para a economia nacional e com os indicadores de outros países, não dispõem, infelizmente, de respostas únicas e seguras. Muitas divergências aparecem nesse cálculo, seja em decorrência da variação dos critérios adotados para classificar a categoria dos engenheiros, seja pelas bases de dados consideradas nas diversas pesquisas e estudos, ou seja, ainda, pelos métodos selecionados, em cada caso, para a filtragem das informações e para a sua projeção. O fato é que, mesmo algumas informações disseminadas oficialmente por instituições ligadas ao assunto (Conselhos Profissionais, MEC, IBGE, FINEP, CAPES, INEP, etc.) não são totalmente convergentes e mutuamente aderentes em suas agregações. No entanto, para os efeitos práticos pretendidos neste blog, podemos assumir, grosso modo, que existem atualmente no Brasil, cerca de 900 mil engenheiros e assemelhados, em idade ativa, em todos os tipos de ocupação e que, provavelmente, seremos mais de 1,3 milhão ao final da década. Esses números expeditos corresponderiam a uma densidade de engenheiros, expressa em percentuais da População Economicamente Ativa – PEA, na faixa de 0,6% a 0,8%. São índices muito baixos em qualquer cotejo internacional, mesmo quando considerados os países em estágio de desenvolvimento e complexidade econômica semelhante ao nosso.


Se considerado apenas o contingente de engenheiros ativos que trabalha nas "ocupações típicas" conforme a conceituação do IPEA, o nosso estoque atual pode ser assumido como sendo da ordem de 360 mil profissionais, ou seja, cerca de 0,3% da PEA. Com as adaptações necessárias para homogeneizar expeditamente os dados e critérios de outras fontes, esse número pode ser comparado, por exemplo, com os indicadores equivalentes de alguns países, regiões e agrupamentos que nos servem de referência nos cotejos econômicos: Finlândia (3,2%), Alemanha (3,1%), França (2,9%), Rússia (2,8%), Suíça (2,7%), Holanda (2,6%), EUA (2,6%), Japão (2,5%), Irlanda (2,4%), Reino Unido (2,2%), União Européia (2,2%), Grécia (1,9%), China (1,8%), Espanha (1,6%), BRICS (1,6%), Portugal (1,2%) e Índia (1,1%).


Na revisão expedita que fiz para organizar esses números, não foi possível incluir os dados correspondentes à Coreia do Sul, por conta da dificuldade de homogeneização dos conceitos relacionados com a caracterização precisa da profissão de engenheiro, com a duração dos cursos, com a distinção entre "força nacional de trabalho" e PEA, além de outros critérios que se afastariam muito daqueles utilizados nas demais fontes, principalmente, da representada pelo "European Engineering Report", elaborado pelo Institut der deutschen Wirtschaft Köln. No entanto, tendo em vista as frequentes comparações que têm surgido entre o Brasil e a Coreia do Sul em outros campos, e para os propósitos limitados deste blog, pode ser admitida que a situação daquele país apresenta-se em nível pouco inferior ao da União Européia (2,2%).


O estudo de Silverstein e Singhi (BCG) já referido no tópico antecedente desta série organizou um ranking geral da competitividade acadêmica das vinte nações mais importantes (denominado BCG E4 Index), sendo que um dos quatro fatores considerados é, justamente, o ingresso anual de novos engenheiros no mercado de trabalho dos respectivos países. Essa ferramenta contorna a complexa questão da homogeneização dos critérios de enquadramento dos profissionais na titulação de engenheiros, da variabilidade dos tipos de formação, da duração dos cursos e das modalidades de ensino, considerando a dinâmica da evolução dos respectivos estoques pelo número anual de graduados que ingressa na força de trabalho de cada nação, em qualquer posição, ou seja, nas "funções típicas" da Engenharia e nas áreas adjacentes. Um fator com essa concepção é mais sintético, seguro e objetivo e é representado por pontos obtidos em funções calibradas sobre todo o universo de países estudados. Os seus resultados são muito interessantes para situar o Brasil, nesse particular: (10° lugar neste quesito entre os dez primeiros do ranking geral de todos os quatro fatores). Para esse fator específico, os resultados obtidos no referido estudo, nas dez primeiras posições gerais do ranking, foram os seguintes: EUA (48), Reino Unido (46), França (41), Canadá (39), Alemanha (37), Japão (19), Rússia (10), China (4), Índia (3) e Brasil (2). Uma interpretação simples desses resultados indica, claramente, que a reposição e a ampliação do nosso pequeno estoque de engenheiros estão sendo feitas muito lentamente e que há um espaço significativo para o aumento de vagas na graduação de Engenharia, para a sua efetiva ocupação e para o combate à elevada evasão escolar. Ou seja, para a produção rápida de mais engenheiros.


Outros fatores também concorrem de forma significativa para o descolamento do Brasil em relação aos demais países indicados no ranking do parágrafo antecedente. O mais notável deles é a pequena fração dos vestibulandos que opta pela formação em Engenharia. Com efeito, diferentemente da situação observada em todos os demais países, os estudantes brasileiros vêm apresentando uma nítida preferência pelas formações nas áreas de Ciências Humanas e Sociais em detrimento das carreiras técnicas, como a Engenharia, numa desproporção de quase nove vezes.


Finalmente, para concluir este segundo tópico da série, gostaria de acrescentar um elemento empírico de ratificação das conclusões antecedentes, segundo as quais o nosso estoque de engenheiros está muito reduzido e precisa ser reposto e ampliado a taxas mais intensas. Trata-se da observação do número crescente de engenheiros estrangeiros que procuram o mercado de trabalho nacional, com a obtenção de vistos temporários ou permanentes, tendência onde preponderam os fluxos originários de Portugal, da Espanha e de alguns países do Leste europeu. A esse contingente de imigrantes, há que se somar, ainda, o número crescente de retornados dos EUA, Canadá, Europa e Austrália, assim como os profissionais latino-americanos que desfrutam de condições especiais para sua internalização. Estamos nos transformando em um país importador de mão de obra qualificada no campo da Engenharia. Essa circunstância, em si, não é ruim, mas aponta para a existência de uma demanda insatisfeita por esse tipo de profissional no mercado brasileiro.

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10 comentários para "A Engenharia e seu Ensino (2)"

Rhafael
Rhafael disse: 22 fevereiro 2013
Infelizmente, ás vezes os engenheiros em idade ativa ficam um tanto isolados em regiões onde não são aproveitados, fazendo com que eles se voltem para optar por outro tipo de carreira. Por exemplo, sou engenheiro sanitarista e ambiental, 24 anos e ainda continuo disponível para o mercado.
Milson Junior
Milson Junior disse: 22 fevereiro 2013
Eu gostaria de parabenizá-lo pela belíssima análise e pela organização dos argumentos apresentados, entretanto, eu o convido para realizar a seguinte reflexão no próximo tópico: existe mesmo uma escassez de engenheiros no Brasil ou o problema estaria na formação deficiente e na dificuldade de inserção dos recém formados no mercado de trabalho? Cada vez mais as empresas exigem não apenas larga experiência no cargo, o que já seria mais que bastante para dificultar o acesso dos jovens profissionais às oportunidades disponíveis, como também uma série de habilidades e competências diversas que permitam a atuação nas mais diferentes áreas dentro da organização. Em outras palavras, o que o mercado procura hoje em dia é um modelo de profissional multiuso, capaz de desempenhar desde funções técnicas básicas até atividades de gerenciamento, marketing e vendas, e ainda consiga se comunicar com objetividade e clareza (preferencialmente em três ou mais idiomas) e se relacionar igualmente bem com os diferentes níveis hierárquicos (quanto mais níveis melhor). Perfil inovador, criativo e empreendedor completam os principais requisitos atuais. Apenas a formação técnica não é mais suficiente para garantir uma colocação profissional, ainda que não seja das melhores. Estamos em busca do profissional perfeito! Talvez uma solução para essa problemática poderia ser encontrada por meio do estreitamento do diálogo entre as universidades e centros de formação profissional e as organizações interessadas em absorver a mão de obra resultante.
Johny C. Susko
Johny C. Susko disse: 22 fevereiro 2013
Primeiramente gostaria de saber:
"engenheiros em idade ativa", qual a idade mais encontrada no Brasil ou mundo em geral? Qual é essa idade?

Segundo: Qual seria as oportunidades iniciais para o novo engenheiro no mercado de trabalho, sendo que este mesmo não tem experiência?

Terceiro: 0.6% ~0.8% ainda são índices relativamente baixo para o nosso país, portanto qual seria o mais apropriado, e se essa relação e feita pela quantidade de pessoa no país?
JOSE RILTON
JOSE RILTON disse: 22 fevereiro 2013
È um problema esperrado num futuro bem próximo . É a tradição do povo brasileiro , só dar valor os de fora!
José de Jesus da Silva
José de Jesus da Silva disse: 22 fevereiro 2013
Olá boa noite, toda essa falta de engenheiro no mercado, se da por falta de incentivo do governo federal, que no passado fez vista grossa diante deste fato. Só agora com pt a coisa mudou. com toda essa facilidade eu acredito que nos próximos anos o mercado estará cheio de novos engenheiros como eu.
Marco
Marco disse: 23 fevereiro 2013
acredito que a faculdade de wngenharia deveria ser um pouco mais levado para o irlado da patica porque assim todos teeiam mais interesse. Hoje os engenheiros. E estagiari. os. cpm quem ttatrabalho sao muito ingenuos nao twm
marco antonio
marco antonio disse: 23 fevereiro 2013
acredito que a faculdade de wngenharia deveria ser um pouco mais levado para o irlado da patica porque assim todos teeiam mais interesse. Hoje os engenheiros. E estagiari. os. cpm quem ttatrabalho sao muito ingenuos nao twm
luiz carlos maracia junior
luiz carlos maracia junior disse: 23 fevereiro 2013
eu,engenheiro civil:luiz carlos maracia junior, ribeirao preto,23de fevereiro d 2013....no meu ponto em relaçao , ao comentario acima ,de numeros de engenheiros...sao varios os fatores negativos inflizmente, o principal, social, politico entre outros...o desinterese dos joves...em fazer uma faculdade, nao so de engenharias...em sim num todo...podendo ser consequencia disso finaceira e tambem , o estudo na base muito fraco... por maioria falta de vontade...agora infelizmente importar mao de obra...principalmente engenheiros, é culpa exclusivamente (politica )....os orgaos q poderia lutar ,pelos nossos interesses o faz...nada...nada...
Tadeu Gouveia
Tadeu Gouveia disse: 24 fevereiro 2013
Rubens, boa noite!
Irei me formar no meio do ano em Engenharia Civil, portanto podem pensar que apenas estou defendendo meu interesse, porém o Sr. com toda experiência, não apenas na área da construção civil como também no mercado em geral, o que pensa sobre a inserção destes engenheiros oriundos de outros países, que até pouco tempo barravam todo e qualquer profissional de outro país, para proteger seus cidadãos, e agora querem formar parcerias uma vez que estão em crise?
Acredito que seria interessante até um post a respeito, pois precisamos claramente de um maior investimento nesta área, tanto em quantidade quanto em qualidade.
É certo que para as empresas pode ser interessante, pois não precisam correr atrás destes profissionais de maneira descontrolada e assim pagar salários exorbitantes, mas com o tempo o país de origem pode voltar a oferecer boas oportunidades e com isso estes profissionais irem embora deixando um estrago que não será reparado a tempo e precisará de uma força tarefa urgente, o que gera maiores custos do que o normal.
Bom, dá para perceber que o assunto promete.
Sucesso e forte abraço.
Paulo
Paulo disse: 08 março 2013
Não se preocupe, com a quantidade de cursos de engenharia que iniciaram dentro de algum anos teremos engenheiros saindo pelo ladrão, ai as empresas poderão pagar um salario de fome para os profissionais.

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