A Engenharia e seu Ensino (3)

Publicado em 26 fevereiro 2013

1 comentários

Nos tópicos antecedentes desta série mencionei dados, estudos e opiniões para mostrar que, no Brasil, precisamos rapidamente de mais engenheiros. Mas, onde buscá-los? Descartada a importação intensiva e incentivada, que, acima de certa proporção ou duração, traz efeitos muito negativos para qualquer país, a solução é produzir os engenheiros de que precisamos nas nossas próprias universidades e centros acadêmicos. Mas, como abastecer com maior quantidade de pretendentes esses mesmos centros de formação superior? Essa não é uma tarefa fácil, mas, felizmente, contamos com o ingrediente principal: um estoque razoavelmente elevado de estudantes cursando os níveis escolares antecedentes (fundamental e médio). Esse estoque de alunos na educação básica, já elevado pelas próprias dimensões populacionais brasileiras, tem se ampliado a taxas relativamente altas com os esforços recentes de universalização do ensino.


O "Anuário Brasileiro da Educação Básica – 2012" indica a existência, no ano de 2010, dos seguintes estoques de alunos regularmente matriculados no Ensino Médio: 7.959.478 (ensino padrão); 924.670 (ensino profissionalizante); 215.718 (ensino integrado) e 182.479 (normal/magistério). A esses números, que perfazem um total de 8.357.675 estudantes, somente no Ensino Médio (que antecede imediatamente a graduação universitária), pode ser acrescido um contingente adicional de 1.427.004 alunos, inscrito em programas especiais de educação de jovens e adultos (EJA).


No estudo de Silverstein e Singhi (BCG) já mencionado nos tópicos precedentes desta série, o potencial de alimentação das universidades pelos estoques em formação nos níveis antecedentes de ensino foi considerado como um dos quatro fatores de competitividade acadêmica entre os países. Conforme a metodologia geral aplicada naquele estudo, para esse quesito também foi estabelecido um índice sintético. E o Brasil se saiu bem melhor nesse particular (4ª posição), sendo este, inclusive, o fator que possibilitou a nossa presença entre os dez países melhor classificados no ranking final (BCG E4 Index). Para efeito de comparação, os resultados específicos obtidos nesse quesito pelos estudos do Boston Consultin Group – BCG foram os seguintes: Índia (90), China (86), EUA (25), Brasil (17), Rússia (9), Japão (7), Alemanha (5), França (4), Reino Unido (4) e Canadá (2).


O mesmo "Anuário – 2012", já referido, indica que, em 2010, o contingente de alunos matriculados no Ensino Superior era de 6.379.299, sendo que 5.449.120 correspondiam à modalidade presencial e 930.179 aos diversos tipos de educação à distância. Mesmo com a diferença de duração entre os níveis de graduação universitária (média de quatro anos) e de Ensino Médio (média de três anos), esses números apontam para uma redução relativamente pequena entre os dois estágios. Em outros termos, a formação superior já parece ser uma consequência natural e uma aspiração alcançável para aqueles que concluem o Ensino Médio.  Como, então, aproveitar melhor o estoque de estudantes do Ensino Médio, para graduar um número maior de engenheiros, na mesma proporção em que isso ocorre em todos os outros países?


Inúmeras pesquisas, dentro e fora da academia, têm examinado esse paradoxo nacional. Muitas são as explicações. Particularmente, eu me convenci das conclusões que apontam para um desvio não desejado, da parte dos vestibulandos, quando optam, exageradamente, pelas Ciências Humanas e Sociais e descartam a Engenharia. Uma grande parcela daqueles que concluem o Ensino Médio busca uma formação universitária possível, qualquer que seja ela, independentemente das respectivas vocações, das preferências entre carreiras ou das perspectivas de crescimento profissional e de remuneração futura. Existe um receio muito generalizado de fracasso nas tentativas de ingresso nos cursos de Engenharia, considerados como "difíceis", "longos" e mais "competitivos". E quais seriam as razões por trás desse receio?


Certamente são muitas, mas, uma das mais visíveis, e vocalizadas pelos próprios vestibulandos, é a formação deficiente em matemática, física, química e demais disciplinas correlatas, exigidas nos cursos de Engenharia e vistas como "fantasmas atemorizantes" por aqueles que não se consideram bem preparados. É sempre possível tratar esse tipo de problema com uma campanha nacional de motivação e esclarecimento, como querem alguns. Mas os resultados desse tipo de instrumento são, quase sempre, demorados e incertos. Resultados mais imediatos e significativos poderiam ser obtidos, em minha opinião, com uma reestruturação da grade escolar e da carga horária atualmente praticadas no Ensino Médio. Nesse particular, ou seja, para possibilitar um acesso mais amplo dos vestibulandos aos cursos de Engenharia, na justa medida das respectivas vocações e pretensões, haveria que se modificar a conceituação estabelecida nas "Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio – DCNEM", que desfavorecem o ensino concentrado das disciplinas científicas, especialmente diante da realidade nacional onde, frequentemente, o curso inteiro não costuma exigir mais do que 2.400 horas-aula em seus três anos. Essa situação ficou particularmente agravada com a promulgação da Lei n° 11.684/2008 que ampliou o número de disciplinas obrigatórias ao incluir a Sociologia e a Filosofia. Em resumo, para o aumento rápido do número de engenheiros, com o bom aproveitamento do estoque de alunos em formação no Ensino Médio (um dos nossos atributos mais favoráveis) é preciso que se ensine mais Matemática, Física, Química e disciplinas correlatas naquele estágio da educação formal. E que se ensine melhor, afastando medos, aflições e fantasmas que assombram os vestibulandos e prejudicam as suas opções de carreira.

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1 comentários para "A Engenharia e seu Ensino (3)"

luiz carlos maracia junior
luiz carlos maracia junior disse: 26 fevereiro 2013
mas principalmente , os alunos tem q querer...e agarrar com vontade, a oportunidade de estudar....atraves de finaciamentos do governo...eu tive muitos dificuldades mas m formei, graças adeus...

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