A Engenharia e seu Ensino (5)

Publicado em 07 março 2013

3 comentários

No tópico anterior desta série abordei a questão da qualidade no ensino da Engenharia e mencionei a complexidade das medidas necessárias para melhorá-la em nosso país. Vou resumir, a seguir, algumas indicações mais importantes nesse particular, para concluir o desenvolvimento deste tema.


Há quase uma unanimidade nas pesquisas, estudos e opiniões que venho consultando, sobre a estrita relação entre o valor do investimento em educação, feito em cada país, e a qualidade do respectivo ensino, incluindo todos os níveis e especialidades e, portanto, a própria Engenharia. À primeira vista, portanto, deveríamos aumentar os investimentos nacionais em educação para alcançarmos uma melhoria final na qualidade do ensino da Engenharia. Mas, essa indicação quase unânime merece um exame mais cuidadoso, especialmente quando isolada a educação superior. Os gastos brasileiros com o ensino universitário estariam, realmente, baixos? E poderiam ser significativamente aumentados sem um sacrifício extraordinário da sociedade?


O relatório "Panorama da Educação – 2012", elaborado pela OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, englobando estudos minuciosos sobre a realidade da educação nos 34 países membros e em outras oito nações que integram o G20 (incluindo o Brasil), traz informações reveladoras e surpreendentes sobre esse assunto e que devem ser consideradas nas respostas às duas indagações registradas no parágrafo antecedente. Segundo essa fonte, cada estudante universitário brasileiro custa ao país, por ano, US$ 11.740,73 – o que, por si só, já representaria um investimento bastante elevado para as nossas condições macroeconômicas. Essa situação fica ainda mais evidente quando expressa como proporção da média de todo o grupo de 34 países desenvolvidos que integram a OCDE (US$ 13.727,55), ou seja, investimos por estudante-ano o equivalente a 86% do que gastam aquelas nações. A título de comparação, e considerando o investimento brasileiro por estudante-ano como sendo 100%, alguns dos 42 países alcançados pelo estudo da OCDE apresentariam os seguintes percentuais equivalentes: EUA (249%), Canadá (178%), Suécia (170%), Japão (136%), Alemanha (134%), França (125%), Itália (81%), Coreia do Sul (81%), México (68%), Rússia (66%), Chile (58%), Argentina (39%) e África do Sul (31%).


Mais surpreendentes ainda ficam essas comparações quando o investimento por estudante-ano é expresso como um percentual da renda per capita media anual de cada um dos 42 países. As seis nações que mais comprometem renda com o custeio de seus universitários são: Brasil (105%), Arábia Saudita (69%), EUA (65%), México (56%), Canadá (54%) e Suécia (54%), sendo que a média desse índice nos 34 países que integram a OCDE é de 42%. Esse resultado particularíssimo do Brasil indica que o nosso cidadão médio está comprometendo mais do que a sua renda total (105%) para custear cada um dos cerca de 6,4 milhões de estudantes matriculados nas universidades brasileiras ou nos cursos de educação à distância. Não parece razoável esperar uma contribuição maior da sociedade para aumentarmos os nossos investimentos em educação superior, na busca da desejável melhoria de qualidade.


Nos mesmos estudos de Silverstein e Singhi (BCG) que tenho usado como referência nesta série, um dos quatro fatores utilizados para a composição do BCG E4 Index e para elaboração do ranking de países com maior competitividade acadêmica corresponde, justamente, ao investimento total (público e privado) no sistema educacional. O Brasil aparece relativamente bem no cotejo com os demais membros dos BRICS segundo essa referência metodológica, na forma do fator considerado: EUA (73), Japão (31), Reino Unido (26), Alemanha (25), Canadá (25), França (24), China (17), Brasil (16), Rússia (10) e Índia (4).


Mas, se não existe muita margem para a melhoria da qualidade do ensino da Engenharia através de aumento significativo dos investimentos nacionais em educação superior, em que direção devemos procurar a consecução desse objetivo no curto prazo? Estou convencido da necessidade de reformas administrativas nas nossas universidades públicas buscando uma melhoria na gestão dos recursos existentes. E, se possível, a inversão da tendência atual de nivelamento da competência das Escolas de Engenharia e dos Centros Acadêmicos. O mesmo estudo do BCG identificou tendência oposta nos esforços atuais empreendidos na China e na Índia, já que esses países buscam reforçar a conveniência de priorizar a consolidação e o desenvolvimento de centros nacionais de excelência acadêmica e de unidades universitárias de alto nível, no molde dos existentes nos países mais desenvolvidos. Para ponderar esse quesito, na forma da estrutura vigente em cada um dos 20 países que integram o ranking, o estudo em questão estabeleceu e calibrou um fator próprio, cujos resultados foram os seguintes: EUA (91), Reino Unido (48), Alemanha (38), França (18), Canadá (18), Japão (16), China (8), Índia (6), Brasil (3) e Rússia (3).


Como consideração final nessa avaliação sobre as possibilidades de melhoria na qualidade dos cursos de Engenharia, quero mencionar, na forma resumida deste último parágrafo, a necessidade de conscientização da população acadêmica para a insubstituível busca de maior dedicação de tempo e esforço nas atividades escolares e no estudo complementar. Não há política de Estado capaz de compensar a diferença de atitude dos estudantes chineses, coreanos e indianos, que chegam a aplicar até 90 horas semanais de seu tempo nos estudos acadêmicos e preparatórios.

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3 comentários para "A Engenharia e seu Ensino (5)"

dionete oliveira
dionete oliveira disse: 08 março 2013
realmente eu comercei a cursa engenharia civil agora já estou becebendo as necessidade.
Romário Rocha
Romário Rocha disse: 09 março 2013
Acho que, com relação à engenharia, o desafio que o Brasil enfrenta hoje é o mesmo que vem sofrendo com a massificação da internet no país. Das últimas duas década para os dias atuais o Brasil passou por relevantes e observáveis transformações. Eramos um país sem perspectivas tecnológicas, sem perspectivas para o desenvolvimento quando a internet instalou-se no país e massificou-se pouco a pouco com o decorrer dos anos. A população brasileira, de maioria classe c, não foi preparada para isso, não foi educada sobre como esse serviço poderia alavancar e beneficiar a educação. A internet chegou num momento em que a população estava despreparada. E isso gerou muitos problemas quanto ao uso ineficiente do serviço. Duas décadas depois o país encontra-se na dita "emergência", caminhando para o desenvolvimento. Nesse momento o primeiro setor chamado, o setor urgentemente requisitado, é a engenharia em todas as suas áreas. Porque é a engenharia que garante infra-estrutura para esse desenvolvimento. Mas novamente, o Brasil não estava preparado. Não incentivou os estudantes brasileiros a inteirar-se às disciplinas principais que recaem na engenharia. Matemática, física e química não podem ser as disciplinas mais temidas num país que deseja ser desenvolvido. Acho que quando fala-se em investimento na educação com referência à engenharia, refere-se muito a "injetar dinheiro", mas na realidade, penso que esse investimento tem que ser com base em campanhas e projetos integradores que visam estimular as crianças a amarem disciplinas de exatas; estimular os adolescentes a estudarem mais no ensino médio. Assim teremos melhor qualidade de ensino nas universidades em todo o país. As escolas do Brasil, desde o ensino básico até o superior, devem ser mais rígidas mas ao mesmo tempo incentivadoras. As escolas devem ser mais atraentes aos estudantes; instigá-los a querer a prender. Tenho muitos amigos que odiavam matemática no ensino fundamental, mas que se apaixonaram por exatas ao encontrar professores de qualidade que perceberam seus dotes matemáticos. Mas estamos melhorando, a engenharia está começando a ser mais procurada nas universidades. Mas muito mais poderia-se fazer além do que já está sendo investido.
charllon rocha de lima
charllon rocha de lima disse: 11 março 2013
gostaria de saber se,como faço para conseguir um estágio na mrv

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