A Falta de Engenheiros no Brasil

Publicado em 24 junho 2015

1 comentários

Na série "A Engenharia e Seu Ensino – (1) a (5)" que desenvolvi neste mesmo blog entre fevereiro e março de 2013, complementada ao final daquele ano pelo tópico "Mais Engenharia e Mais Engenheiros", examinei detalhadamente a carência brasileira por esse tipo de profissional e as características especiais do ensino nacional nesse particular. Cerca de dois anos depois é inevitável que eu volte ao assunto, atualizando idéias e agregando aspectos especiais do momento atual. Ainda faltam engenheiros? Pioramos ou melhoramos nesse quesito? A crise econômica afasta os vestibulandos da busca de vagas nessa carreira ou, ao contrário, a falta de engenheiros contribui para agravar o quadro econômico? O que é causa e o que é conseqüência? São, todas, perguntas que podem ajudar na busca de uma interpretação atualizada da realidade nacional.


Logo após a minha formatura em Engenharia iniciava-se a forte crise econômica que abalou o Brasil naquela que ficou conhecida como a "década perdida" e cujos efeitos estenderam-se até o princípio dos anos 1990. Foi uma tristeza. Muitos dos novos engenheiros não conseguiam trabalho na profissão e quase todos os que ainda dispunham de emprego queixavam-se do baixo salário, quando comparado ao de épocas anteriores. Em 1983, quando a crise econômica atingiu seu ápice, o PIB brasileiro despencou 5% – o pior resultado que colhemos em todos os tempos. Vivíamos, então, num ambiente econômico gravíssimo e inseguro, no qual a renda per capita caiu 7,3% em um único ano e a taxa de desemprego cresceu absurdamente. A Engenharia foi atingida em cheio e seus profissionais ficaram fortemente desestimulados até o início dos anos 1990, quando o conjunto da economia, incluindo o setor da Engenharia, começou a recuperar o seu ritmo anterior. Na virada do século, vivenciamos um período com características opostas, bons ventos provenientes do mercado externo (crescimento global a taxas aceleradas e preços elevados para as commodities que exportávamos) produziram aqui um grande dinamismo econômico e a Engenharia passou a viver momentos de muita valorização, com ofertas crescentes nas áreas de construção pesada, de mineração, de construção habitacional e na indústria automobilística, entre outras. Até que a crise atual apagou as luzes dessa fase auspiciosa.  Acompanhei bem a sucessão desses ciclos e os seus efeitos na formação e na empregabilidade dos engenheiros.


No período mais recente, tive a oportunidade de ver esse panorama em detalhe, no comando na nossa Construtora: MRV Engenharia, que além de um numeroso corpo de engenheiros bem qualificados, conta também com mais de mil estagiários nessa área. Mesmo tendo o cuidado de distinguir as características especiais do nosso corpo técnico – recrutado com esmero entre aqueles de melhor formação – pude observar uma evolução significativa na respectiva qualificação. Em geral, os novos profissionais da Engenharia apresentam-se mais bem qualificados e adaptados aos paradigmas atuais de produção, principalmente no que diz respeito ao uso de tecnologias inovadoras e à integração funcional. É gente com perfil de qualidade superior àquele que conhecíamos no passado e que podem apresentar produtividade significativamente mais elevada. Mas, infelizmente, ainda são muito poucos quando o seu número é comparado às necessidades nacionais.


Em 2014, segundo dados da Federação Nacional de Engenheiros – FNE, formaram-se, apenas, 42 mil novos engenheiros no Brasil. Comparativamente, estudo divulgado no World Economic Forum acerca do número de engenheiros formados em 2014 nos dez países com maiores contingentes desses profissionais (excluídas a China e a Índia por falta de dados) aponta a magnitude da nossa defasagem: Rússia - 455 mil ; EUA - 238 mil ; Irã - 234 mil ; Japão - 168 mil ;Coréia do Sul - 148 mil ; Indonésia - 140 mil ;Ucrânia - 130 mil ; México - 114 mil ; França - 105 mil ; Vietnã - 100 mil. Em minha opinião, a baixa quantidade de engenheiros formados no Brasil, em que pese a sua melhoria qualitativa sob seleção, é um ingrediente importante na gênese da crise econômica que vivenciamos ou, pelo menos, um empecilho para dela sairmos com rapidez. Uma coisa está atrelada à outra. Um bom indício dessa ligação é o fato indiscutível de que, apesar da nossa grande população (5ª maior do mundo) e do tamanho da nossa economia (7ª maior do mundo) consumimos apenas 2,5% do cimento e do aço produzidos no planeta. Um resultado muito aquém das potencialidades da nossa Engenharia. Precisamos dinamizá-la, agregando-lhe maior contingente de profissionais de boa formação, entre outros requisitos que escapam ao objeto restrito deste tópico, para utilizá-la como instrumento de alavancagem do nosso perdido crescimento econômico.

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1 comentários para "A Falta de Engenheiros no Brasil"

Aristófanes Castro da Costa
Aristófanes Castro da Costa disse: 25 julho 2015
Muito boa a postagem, é uma pena saber que uma profissão tão importante para a sociedade não atrai tanto os jovens brasileiros para essa área de formação! Como estudante de engenharia civil me sinto limitado pela falta de oportunidades que temos no período de formação, não temos nenhum incentivo quanto estágios e outros cursos que podem enriquecer nosso currículo nesse período universitário.

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