A importância do Capital Cívico para uma nação

Publicado em 25 agosto 2015

14 comentários

No item anterior deste blog mencionei o livro de Alain Peyrefitte, publicado no Brasil com o título "A Sociedade de Confiança", É uma esplêndida obra de referência. Nela, o intelectual francês e homem de larga experiência política (onze vezes ministro de Estado) apresentou dados copiosos para embasar a suas convicções de como teriam ocorrido o desenvolvimento europeu e a estruturação das sociedades naquele continente. No conjunto, ressalta a proeminência da "confiança", ingrediente essencial para o crescimento das sociedades, para a ação cooperativa entre os agentes econômicos e para o comportamento proativo entre os cidadãos e suas instituições.


Mais modernamente, parte desse conceito tem sido designado pelo termo "Capital Cívico", para indicar "o estoque de crenças e valores que estimulam a cooperação entre as pessoas e a estruturação das sociedades com base na confiança mútua entre os cidadãos, na segurança das avenças e na eficiência confiável das instituições". Esse é o ambiente cuja sustentação perene garantirá a segurança das sociedades, o trato cooperativo e confiável entre as pessoas, a melhoria do padrão ético geral e o progresso econômico de todos. Em resumo, segundo os expoentes dessa doutrina, quanto maior for o Capital Cívico de uma nação e quanto mais depressa ele crescer, maior nível de riqueza, de prosperidade, de segurança e de bem-estar será alcançado por essa mesma nação.


Em artigo recente, o renomado economista André Lara Resende (ex-presidente do BNDES e um dos responsáveis pela concepção do bem-sucedido Plano Real) voltou ao tema com interessantes abordagens registradas sob o título "Corrupção e Capital Cívico". Algumas delas ganham importância especial no contexto da crise econômica e política que assola o país com o seu clima de incertezas e com a desorientação geral dos nossos dirigentes políticos. De fato, no momento em que mais precisamos de lideranças confiáveis, de segurança para os consumidores, de confiança entre os investidores, e de um ambiente negocial eficiente e cooperativo, estamos correndo justamente na direção oposta, ou seja, estamos assistindo o derretimento acelerado do pequeno Capital Cívico que havíamos acumulado. Temos que inverter esse processo. E o mais rapidamente que conseguirmos, mesmo na ausência de grandes lideranças políticas que pudessem empolgar a nação. Para tanto, temos que lutar por princípios, buscando consolidar a ética e a lisura em todos os mecanismos de gestão do estado. Seria um bom começo.


Do artigo já mencionado, um trecho em especial merece ser reproduzido, pela forma com que o autor distingue comportamentos criminosos circunstanciais de princípios que poderiam impedi-los, já que pressupõe a eterna capacidade dos indivíduos para racionalizar as atitudes, seja evitando rótulos e enquadramentos pejorativos ou socialmente repulsivos, seja justificando a nobreza dos fins: "A propensão a agir incorretamente depende também da nossa capacidade de racionalizar. Se formos capazes de justificar a desonestidade somos muito mais propensos a agir de forma inapropriada. Isso vale tanto para atos mais corriqueiros de incorreção, como também para os mais graves. Roubos, assaltos, até mesmo assassinatos, podem ser cometidos de forma fria, por pessoas que se consideram honestas, desde que em nome de uma causa. O caso de políticos que roubam para o partido ou para financiar campanhas eleitorais, nunca para o seu enriquecimento, é exemplar da necessidade de racionalização. Os estudos mostram que quando a desonestidade pode beneficiar pessoas do nosso grupo ou até mesmo desconhecidos, a propensão à desonestidade aumenta. Uma vez encontrada a justificativa nobre, a racionalização, é possível ser desonesto e manter a autoestima. É o efeito Robin Hood, mas uma vez rompida a barreira psicológica, passa-se mais facilmente para a desonestidade aberta. Quando passamos a nos ver como desonestos, perde-se o pudor. Se esse for o comportamento disseminado entre os nossos pares, tudo se torna ainda mais natural". Em resumo: não existe criminalidade virtuosa. Todo crime é crime e Robin Hood também foi um fora-da-lei. Vamos consolidar o princípio que não há justificativa para o crime, pequeno ou grande, rejeitando todos e dando fim à sensação geral de impunidade.  E, com isso, resgatarmos parte do Capital Cívico erodido na crise.  

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14 comentários para "A importância do Capital Cívico para uma nação"

Andres Mendez
Andres Mendez disse: 25 agosto 2015
Confiança tem muito a ver com RESPONSABILIDADE E DEVER, no Brasil vivemos a Republica dos DIREITOS
Esse me parece o maior problema da nossa sociedade e da nossa industria da construção
No cristianismo chamamos isto de fe, mas temos uma grande responsabilidade de fazer sempre o correto além de acreditar no criador
os exemplos de falta de responsabilidade na A Latina são muitos e o preço a pagar vai ser alto, nossa preocupação apenas esta na defesa da individualidade, poucas vezes da empresa e do pais
Flávia Nelita Passagli
Flávia Nelita Passagli disse: 25 agosto 2015
Os fins só justificam os meios quando se exerce a ética da responsabilidade!
Rodrigo Cabral
Rodrigo Cabral disse: 30 agosto 2015
Ótimo artigo!

Temos que chamar a Hannah Arendt, ela que percebeu que os subordinados do Hitler eram reles funcionários, que banalizaram o holocausto com um mero "apenas cumpri o serviço que me foi dado".

Como o artigo explica, banalizou-se a corrupção, "apenas arrumei dinheiro para a campanha do meu partido", ou, como disse o Lula certa vez, que o caixa dois era coisa feita sistematicamente no Brasil por vários partidos.
Leandro Dias Viana
Leandro Dias Viana disse: 30 agosto 2015
Solução de momento para a construção civil seria reduzir a quantidade de unidades por canteiro de obra. Fazer empreendimentos com 2 blocos para manter o planejamento em X e pulverizar localizações, abrindo o leque de mercado. Além disso, melhorar o gerenciamento da produtividade de MO. Novas tecnologias industrializadas também são muito bem vindas!!!
Andres Mendez
Andres Mendez disse: 03 setembro 2015
Leandro, VOÇÊ ESTÁ CORRETO, O QUE NOS FALTA AINDA É ENTENDER O PLANEJAMENTO E SABER OBEDECER UM ORÇAMENTO
AINDA VEMOS NAS OBRAS PILARES E COLUNAS CONSTRUIDOS COM MADEIRA E MUITOS ESPECIALISTAS, DEMORANDO DIAS O QUE PODERIA SER FEIO EM MINUTOS, MAS NOSSA CULTURA IMPEDE QUE PENSEMOS PRIMEIRO NO RESULTADO, ANTES TEMOS QUE PENSAR NO NOSO PROPRIO LADO
EU ACHO QUE PELA QUALIDADE DA NOSSA ENGENHARIA DEVERIAMOS ESTAR MUITO MELHOR DO QUE ESTAMOS, MAS PENSAMOS NAS VANTAGENS INDIVIDUAIS E POUCO NA EMPRESA, ENTÃO A PALAVRA PRODUTIVIDADE APENAS SIGNIFICA UM PEQUENO CONÇEITO ISOLADO NA NOSSA VIDA
jadilson candido ribeiro
jadilson candido ribeiro disse: 30 agosto 2015
Tenho o maior respeito pela o seu trabalho. E seu e ter muita responsabilidade com seus trabalhadores, nunca ficamos sem receber nossos ou atrasar. muito obrigado.
So agora que estou dessepregado, por motivos meu, mais agora estou morando cariacica es.
Antes morava em Ribeirao Preto SP.
muito obrigado.
ass; jadilson candido ribeiro (Goiano)
fui servente e operador de betoneira.
Francisco fabio vieira braz
Francisco fabio vieira braz disse: 01 setembro 2015
Quero muito poder comprar uma casa para mim minha familia.queria muito fazer um financiamento da casa própria. Não tenho nada ver com a crise do brasil tentei financiar uma casa com a caixa não deixou eu financiar issi é uma injustiça pessoas com menos poder arquisitivo compra uma casa eu naão posso só porque sou bombeiro militar será porque vendir um carro e deixei no meu nome e não quitei a divida do carro que não mim pertence mais o processo esta no juizado especial. Como poderei quitar a divida se o carro se emcontra com uma pessoa que nem sei quem é?!!!
Monica Costa
Monica Costa disse: 01 setembro 2015
Para se conquistar a etica sonhada de uma sociedade so seria possivel com a educação, se não houvesse corrupçao dos meios de investimento.
Everson de Jesus
Everson de Jesus disse: 03 setembro 2015
Parabéns Sr. Rubens Menim pela conceituada empresa que realiza sonho de milhares de pessoas no programa minha casa minha vida, receba todo meu respeito e admiração, o Brasil tem ter homens do vosso perfil, para um Pais melhor para todos, gerando empregos e renda, forte abraço continue por muitos anos 3182471717 deus abençoe sempre.
WILLIAM GOMES DA CRUZ
WILLIAM GOMES DA CRUZ disse: 10 setembro 2015
É totalmente pertinente repensar as atitudes visto que a nossa cultura tem a demagogia de afirmar que crime é somente quando são roubados alguns milhares de reais. Crime é crime, independentemente do porte. Então a partir disto, eu, dentro desta visão demagógica, posso tudo que me trouxer vantagem e o outro que faz o mesmo deve ser punido. Acredito piamente, que devemos rever todo o processo educativo, que constitui a base essencial para banir esta forma perniciosa de nossa sociedade.
Andres Mendez
Andres Mendez disse: 28 janeiro 2016
Na cultura técnica do nosso pais o CEO, presidente, etc. pensam em Gestão e RESPONSABILIDADE, mas não sabem a parte que cabe a direção da empresa, apenas pensam na responsabilidade dos outros
Falhas como da Samarco não podem ser individualizadas, é uma soma de erros que nasce em algúm lugar e com certeza não é na construção da barragem
Antonio Carlos
Antonio Carlos disse: 11 setembro 2015
Aprendi os valores cívicos e ética na escola OSPB e Moral e Cívica, conseguiram destruir com tudo.
Raul Ortega
Raul Ortega disse: 14 setembro 2015
Andres Mendez, você também está muito correto! Acredito que com o potencial que existe em nossa engenharia, nos daria condições de atingir melhores resultados. Mas é como você menciona acima, a nossa cultura nos leva a prezar interesses individuais, a produtividade realmente vem em ultimo lugar. Somos descendentes de várias raças, e culturas diferentes. Vivemos em uma terra descoberta por refugiados da Espanha e de Portugal, naquela época, houve uma tremenda confusão para determinar quem de fato havia descoberto o Brasil. Daí surgiu o "Tratado de Todersilhas" após este tratado, decidiram então que havia espaço para todos explorarem nosso recursos naturais....daí passaram a defender apenas seus interesses. Criaram leis que existem até os dias de hoje, e diante de possíveis penalidades, criavam outras leis para amortizar, ou até mesmo ignorar possíveis condenações...Essa corrupção vem dos anos de 1500. Não temos nenhuma culpa!
andres mendez
andres mendez disse: 18 setembro 2015
Acho que você confirma que nos falta uma identidade voltada a resultados e não apenas a buscar oportunidades
Quando buscamos a união na familia para depois buscar no mercado, na nossa empresa e no nosso pais as crises são leves
Infelizmente o nosso empresario ainda não descobriu a capacidade da sua mão de obra e persegue projetos de terceiros quando deveria ter seu proprio objetivo, investindo mais em gente e menos em oportunidades do lucro fácil
Grandes empresas estão sofrendo pela falta de visão do empresario e não pela capacidade da mão de obra
Andres P Mendez
Andres P Mendez disse: 18 setembro 2015
Acho que você confirma que nos falta uma identidade voltada a resultados e não apenas a buscar oportunidades
Quando buscamos a união na familia para depois buscar no mercado, na nossa empresa e no nosso pais as crises são leves
Infelizmente o nosso empresario ainda não descobriu a capacidade da sua mão de obra e persegue projetos de terceiros quando deveria ter seu proprio objetivo, investindo mais em gente e menos em oportunidades do lucro fácil
Grandes empresas estão sofrendo pela falta de visão do empresario e não pela capacidade da mão de obra

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