A Insegurança Hidrelétrica (1)

Publicado em 15 janeiro 2013

3 comentários

Entre julho de 2001 e fevereiro de 2002 vivemos uma crise de grandes dimensões, que ficou conhecida como o "Apagão Elétrico". Muitos dos efeitos perniciosos daquela crise ainda se fazem sentir atualmente e alguns prejuízos são, simplesmente, irrecuperáveis (perdas de investimento e renda, alterações nas bases cambiais e nos juros, etc.), já que não podem ser substituídos por ganhos ou recuperações subsequentes. Estudo publicado em 2009 pelo TCU – Tribunal de Contas da União estimou as perdas financeiras diretas daquela crise como sendo de R$ 45,2 bilhões. Especialistas têm afirmado, também, que o prejuízo médio direto de cada brasileiro, com o apagão, teria sido superior a R$ 300, a preços da época. Mas, os efeitos sentidos mais diretamente pela população e pelo setor produtivo foram: o racionamento forçado, a aplicação de multas e cortes de energia para aqueles que não reduzissem o consumo de acordo com as metas impostas, o aumento tarifário e o pagamento daquilo que ficou conhecido como "seguro-apagão" (Encargo de Capacidade Emergencial – ECE).



Por mais sérias que tenham sido as consequências mencionadas no parágrafo antecedente, existem efeitos ainda mais graves, em minha opinião. Em primeiro lugar, grande parte da população se convenceu, ou foi convencida, de que a crise teria sido produzida por uma escassez extraordinária de chuvas, especialmente nas regiões Sudeste e Nordeste do país, conquanto fosse admitida que essa mesma causa pudesse ter sido potencializada pela falta continuada de investimentos nos sistemas de geração e transmissão de energia. Realmente, aquele foi um período de chuvas muito escassas. Mas, isso não foi um fenômeno extraordinário e muito menos único, já que reproduziu as mesmas características estatísticas e hidrometeorológicas de períodos antecedentes (que não geraram apagões). São Pedro não foi o único culpado e nem existe razão para o conformismo geral que costuma ser adotado diante de fenômenos superiores ou celestiais.


Em segundo lugar nesta compilação de efeitos adicionais, coloco a solução emergencial adotada na ocasião – reativação e construção de um grande número de usinas termelétricas, principalmente a gás e a óleo combustível –, que além de operacionalmente caras, contribuíram para sujar, ambientalmente, a matriz energética brasileira, já que acabaram incorporadas de modo permanente ao nosso parque gerador e estão servindo de pretexto para impedir a ativação de melhores opções.


Registro, em terceiro lugar, o recrudescimento de uma tendência anterior ao apagão de 2001, mas muito acelerada após a crise: a supermotorização das usinas, com a instalação, em cada hidrelétrica, de um número de turbinas superior àquele que seria estabelecido em um dimensionamento convencional do empreendimento. Essa tendência estendeu-se, inclusive, ao acréscimo de novas máquinas em usinas antigas de grande porte, na busca de aumentar-lhes a potência instalada, mesmo com a ampliação do risco de insuficiência hídrica (já que elas não têm sido utilizadas apenas para garantir a desejável reserva de geração secundária ou para turbinar águas que seriam vertidas ociosamente).


O que os especialistas afirmam é que a vulnerabilidade do sistema hidrelétrico brasileiro (responsável por cerca de 70% da energia gerada no país) decorre da progressiva e continuada perda de capacidade de reservação. Em outros termos, a partir da década de 1990 os novos empreendimentos hidrelétricos têm sido construídos na forma de usinas a fio d’água (mesmo quando são de grande porte), sem reservatórios de acumulação, ou seja, como barragens que não estocam água. Cada vez mais, um número maior de usinas geradoras (algumas supermotorizadas) passa a depender da regularização de vazões propiciada pelo mesmo conjunto de reservatórios construídos na época em que a demanda por energia era muito menor (Furnas, Três Marias, Itumbiara, Sobradinho, etc.).


Em resumo, o Sistema Interligado Nacional – SIN está ficando perigosamente a fio d’água. Essa foi a principal causa do apagão de 2001 (faltou água estocada) e, se não corrigida, poderá se transformar no elemento básico para a eclosão de novas crises. Isso não é apenas uma questão de decisão política e tem origens mais complexas, que pretendo abordar em tópico subsequente deste blog.

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3 comentários para "A Insegurança Hidrelétrica (1)"

Roni Dalvi
Roni Dalvi disse: 15 janeiro 2013
A estrutura energética brasileira precisa ser ampliada e diversificada. Já existem esforços para isso, porém muito a quem do esperado. A economia só cresce se houver energia disponível e em bons níveis de segurança energética.
Roni Dalvi
Roni Dalvi disse: 17 janeiro 2013
Infelizmente ainda é caro de produzir aqui. Uma serie de fatores impedem a ampliação dos nível de produção. Energia, infraestrutura e tributação são 3 fatores que puxam a alavanca para tras.
wendell
wendell disse: 25 janeiro 2013
Enquanto houverem "eco"loucos, vai ser cada vez mais difícil produzir a energia limpa que é a gerada pela hidrelétrica.
Licenciamentos ambientais que são votados em Assembleia pública vira discurso político ambiental...
Infelizmente...

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