A Mobilidade Social e o Mercado Imobiliário

Publicado em 11 julho 2013

9 comentários

Antes da grande crise financeira internacional, que assumiu contornos mais nítidos a partir de 2008, a maior parte do mundo viveu um período razoavelmente longo de prosperidade, com crescimento econômico generalizado. Nesse movimento, cerca de meio bilhão de pessoas saiu da faixa de extrema pobreza e alcançou os estratos de maior renda. Além dessa mobilidade positiva entre os estratos, que contribuiu para a diminuição dos índices de desigualdade em um grande número de países, a pirâmide social, em seu conjunto, também experimentou um crescimento médio de renda, que configurou um efeito de prosperidade global continuada.


Quando arrefeceram os bons ventos dessa conjuntura internacional favorável, diferentemente de outros países, o Brasil continuou a apresentar índices muito positivos de mobilidade social e prosperidade. Diversos fatores contribuíram para isso. Num primeiro momento, logo após a eclosão da crise internacional, o nosso País continuou apresentando bom desempenho econômico, aproveitando os preços favoráveis de alguns importantes itens de exportação, a existência de contas externas robustas e saudáveis e outras vantagens relativas. A renda, os salários e o acesso ao crédito continuaram a subir, sustentando, entre nós, o fenômeno da mobilidade social positiva, com o consequente aumento dos níveis de consumo. Mesmo com a continuidade da crise internacional e com a relativa deterioração dos indicadores de desempenho da nossa economia no período mais recente, ainda estamos tirando proveito da estabilidade financeira advinda do Plano Real (incluindo o controle da inflação e a capacidade de atração de investimentos externos), dos programas de distribuição de renda e do chamado "bônus demográfico. A conjunção de todos esses fatores fez com que perdurasse aqui, mesmo com o fraco desempenho da economia nos últimos dois anos e meio, o movimento anterior de mobilidade social positiva.


O fato concreto de interesse para este tópico é que, no corrente exercício, já alcançamos uma pirâmide econômica muito mais equânime e próspera, conforme se depreende dos resultados divulgados no "IPC Maps 2013" (elaborado e divulgado anualmente pela IPC Marketing Editora). Esses dados estão sendo resumidos a seguir, com a letra que indica cada classe, seguida de dois percentuais: o da população nela contido (número de domicílios) e o da respectiva participação no valor total do consumo nacional. (A ; 4,6%  ; 19,1%) ; (B ; 32,1%  ; 48,3%) ; (C ; 48,7%  ; 27,8%) ; (D ; 13,9%  ; 4,1%) ; (E ; 0,7%  ; 0,7%). Segundo essa fonte de referência, os percentuais antecedentes estão associados a uma população total de 195,6 milhões de habitantes (58,7 milhões de domicílios) e a um potencial de consumo nacional da ordem de R$ 3,0 trilhões. Interessante observar também o efeito da mobilidade social nestes índices, uma vez que, somente no último ano, a participação relativa da classe C no consumo nacional teria subido de 26,7% para 27,8%, associada a uma renda familiar média da ordem de R$ 1.971,00 no mesmo estrato.


Esses dados, associados a conclusões de outros estudos, especialmente os conduzidos pela FGV – Fundação Getúlio Vargas, mostram algumas tendências interessantes. Com efeito, a diminuição do crescimento econômico nos últimos anos tem modificado o perfil de gastos dos brasileiros, reduzindo os percentuais relacionados com itens de consumo menos essencial (telefones, automóveis, eletrodomésticos e viagens), mas, ampliando as destinações para a casa própria, destacadamente.


Os efeitos dessas tendências todas já se fazem sentir, nitidamente, no mercado imobiliário, especialmente no segmento de locação de imóveis e no mercado secundário (revenda de imóveis). A busca mais exigente de moradias por um contingente maior trouxe, como reflexo, um aumento significativo dos aluguéis. No que concerne ao mercado secundário, as estimativas já apontam que esse segmento poderá chegar, em prazo relativamente curto, a um volume de vendas seis vezes superior ao do mercado primário. Essa última, é uma característica observada no mercado dos países mais desenvolvidos e que, entre nós, está sendo acelerada e potencializada pela pequena oferta relativa de imóveis no mercado primário e pelas pressões resultantes do fenômeno de mobilidade social.

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9 comentários para "A Mobilidade Social e o Mercado Imobiliário"

Rodrigo Cabral
Rodrigo Cabral disse: 12 julho 2013
Prezado Rubens,

Agradeço o compartilhamento de sua experiência e conhecimentos através do blog. Para mim, que também sou Engenheiro e atuo no ramo de construção civil, as informações são utilíssimas!

Parabéns e continue, pois estarei sempre lendo!
Rodrigo
Marcos
Marcos disse: 20 julho 2013
Excelente artigo. Embora seja louvável o crescimento na participação no valor de consumo da classe C, pois esse resultado não é um de um trabalho de curto prazo e que requer muito planejamento e mudanças profundas na estruturas governamentais, políticas fiscais e econômicas acredito que ainda há muito, mas muito mesmo o que se pode e se deve fazer para melhorar efetivamente e com sustentabilidade os resultados da mobilidade social. Principalmente entre as classes D e E, a começar pelo grande problema que todos já conhecem que está paralisado o Brasil em todos os âmbitos , desde o controle da inflação à política de juros, que são os cortes nos gastos públicos e a redução da pesada carga tributária brasileira. Acredito que sem resolver essa duas polêmicas feridas, devido a grandiosa e complexa estrutura política que foi construída para manter esse sistema à anos, a mobilidade social assim como tantos outros problemas sociais continuarão insolucionáveis.
Marcos Dassie
Marcos Dassie disse: 20 julho 2013
Excelente artigo. Embora seja louvável o crescimento na participação no valor de consumo da classe C, pois esse resultado não é um de um trabalho de curto prazo e que requer muito planejamento e mudanças profundas na estruturas governamentais, políticas fiscais e econômicas acredito que ainda há muito, mas muito mesmo o que se pode e se deve fazer para melhorar efetivamente e com sustentabilidade os resultados da mobilidade social. Principalmente entre as classes D e E, a começar pelo grande problema que todos já conhecem que está paralisado o Brasil em todos os âmbitos , desde o controle da inflação à política de juros, que são os cortes nos gastos públicos e a redução da pesada carga tributária brasileira. Acredito que sem resolver essa duas polêmicas feridas, devido a grandiosa e complexa estrutura política que foi construída para manter esse sistema à anos, a mobilidade social assim como tantos outros problemas sociais continuarão insolucionáveis.
Emanuel de Aguiar magalhães
Emanuel de Aguiar magalhães disse: 01 setembro 2013
Parabéns!
Ótimo artigo.
Adriana Carrara
Adriana Carrara disse: 21 novembro 2013
Bom dia

Prezado Marcos Menin

Gostarímos de publicar o seu artigo na íntegra em nossa revista, seção Imóveis - edição dezembro.
A Revista Bem+ Osasco distribui 12 mil exemplares gratuitos em Osasco e Região. Além de divulgar os artigos na redes sociais e no nosso site.

Aguardamos seu contato.

Obrigada

Adriana Carrara
Editora
ROSANE ABREU
ROSANE ABREU disse: 19 janeiro 2015
Gostaria de receber a newsletter de vocês.
Obrigada,

Att,

Rosane Abreu
Rubens Menin
Rubens Menin disse: 27 janeiro 2015
Olá Rosane. Gostaria de receber a newsletter MRV Jornal da Casa Própria? A senhora pode se cadastrar no próprio site da Newsletter: http://www.mrv.com.br/newsletter\nUm abraço.
Anselmo
Anselmo disse: 14 setembro 2015
Mobilidade é gargalo de toda metrópole.

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