As Empresas e a Filantropia

Publicado em 24 setembro 2013

7 comentários

No tópico antecedente deste blog, mencionei uma característica peculiar da sociedade norte-americana, que tem sido essencial para garantir a sobrevivência de suas principais universidades e para a farta distribuição de bolsas aos capacitados mas desprovidos de recursos para as dispendiosas despesas acadêmicas: o grande volume de doação patrimonial ou financeira enviado pelos seus ex-alunos que foram bem-sucedidos nos negócios. Fiquei com receio de ter sido mal compreendido já que aquele comentário poderia levar ao falso entendimento de que, nos EUA, a filantropia estaria restrita à benemerência de pessoas físicas e ao apoio às universidades. Decidi estender um pouco mais a abordagem, para evitar qualquer interpretação imprecisa ou incompleta da realidade daquele país.


A filantropia e as atitudes generosas são hábitos muito arraigados e abrangentes nos EUA. Não se resumem às pessoas físicas. Pelo contrário, as empresas praticam políticas próprias de apoio financeiro a um grande número de ações beneméritas de alcance muito mais amplo do que o já descrito para a educação e que incluem, frequentemente, transferências para outros países. A Bloomberg, por exemplo, apontou que, apenas as 10 empresas que mais doaram em 2011 fizeram contribuições financeiras superiores a US$ 12 bilhões para filantropia naquele exercício. São números que não chegam, sequer, a uma escala comparável com a observada no Brasil.


Essa característica de generosidade das empresas norte-americanas já foi objeto de muitos estudos e de pesquisas, que incluíram a comparação com o comportamento observado em outros países. Mesmo tendo que resumi-las às possibilidades de espaço deste blog, gostaria de destacar algumas conclusões importantes desses estudos. Existe uma certa analogia de comportamento entre as doações de ex-alunos às universidades em que eles se formaram e a filantropia das empresas norte-americanas em diversos programas sociais e de apoio comunitário: é a sensação de pertencimento, respeito ou integração. Ambas as classes de agentes têm o seu sucesso reconhecido e não hostilizado pelo mercado, pelos padrões culturais e, enfim, pelas próprias comunidades que se beneficiam dessa generosidade potencial. Nas palavras resumidas do Prof. Benito Meneghetti: nos EUA, o público e as instituições torcem pelo sucesso dos futuros mecenas e esses se sentem incentivados à retribuição.


Mas, quero finalizar este tópico com uma opinião pessoal. Independentemente das diferenças culturais entre os dois países, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento do sucesso como um resultado justo e benéfico, os brasileiros têm uma disposição elevada para os atos de benemerência. É o que mostram, por exemplo, os dados divulgados pelo Centro de Pesquisa Motivacional, que tratam do voluntariado em ações sociais. Os resultados evidenciam que 54% dos jovens brasileiros querem ser voluntários, mas não sabem que causas apoiar e como começar. Tenho percebido idêntica hesitação por parte de muitas empresas: como, onde e a quem ajudar? No caso das empresas brasileiras, há que se acrescentar o efeito negativo das dúvidas resultantes da atuação das instituições do terceiro setor. Falta transparência que ateste a garantia e a segurança das doações a causas meritórias. A grande maioria dessas instituições está organizada para buscar recursos governamentais e utilizar verbas públicas ou para gerenciar benefícios legais. Faltam instituições e iniciativas focadas no potencial de filantropia existente no âmbito das próprias empresas do mercado nacional.

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7 comentários para "As Empresas e a Filantropia"

Clara
Clara disse: 24 setembro 2013
Caro Rubens, sou repórter da Folha de S. Paulo e gostaria muito de fazer uma entrevista com o senhor sobre o mercado imobiliário. O que o senhor acha? Deixo meu e-mail acima
Muito obrigada,
Att

Clara Roman Pinto da Fonseca
werbeth
werbeth disse: 24 setembro 2013
Infelizmente, muitas entidades sem fins lucrativos são, na realidade, lucrativas ou atendem os interesses dos próprios usuários. Um clube esportivo, por exemplo, é sem fins lucrativos, mas beneficia somente os seus respectivos sócios. Muitas escolas, universidades e hospitais eram no passado, sem fins lucrativos, somente no nome. Por isto, estes números chegam a 220.000.
Imprensa
Até 1995, a pouca cobertura que a Imprensa fazia sobre o terceiro setor era, normalmente, negativa. Com a descoberta de que a maioria das entidades é séria e, portanto, faz bom trabalhos, este setor ganhou respeitabilidade. Com isso, quadruplicou a centimetragem de notícias sobre o terceiro setor. A missão agora é transformar este novo interesse em cobertura constante.
As empresas tentam causar uma primeira boa impressão ao fazer produtos com qualidade, tratar o cliente como um rei, com o objetivo de torná-los leais à marca e fidelizá-los.

O problema desse paradigma é que você só causa uma boa impressão se, e somente se, o cliente decidir fazer a sua primeira compra.
werbeth mrv
werbeth mrv disse: 24 setembro 2013
Infelizmente, muitas entidades sem fins lucrativos são, na realidade, lucrativas ou atendem os interesses dos próprios usuários. Um clube esportivo, por exemplo, é sem fins lucrativos, mas beneficia somente os seus respectivos sócios. Muitas escolas, universidades e hospitais eram no passado, sem fins lucrativos, somente no nome. Por isto, estes números chegam a 220.000.
Imprensa
Até 1995, a pouca cobertura que a Imprensa fazia sobre o terceiro setor era, normalmente, negativa. Com a descoberta de que a maioria das entidades é séria e, portanto, faz bom trabalhos, este setor ganhou respeitabilidade. Com isso, quadruplicou a centimetragem de notícias sobre o terceiro setor. A missão agora é transformar este novo interesse em cobertura constante.
As empresas tentam causar uma primeira boa impressão ao fazer produtos com qualidade, tratar o cliente como um rei, com o objetivo de torná-los leais à marca e fidelizá-los.

O problema desse paradigma é que você só causa uma boa impressão se, e somente se, o cliente decidir fazer a sua primeira compra.
werbeth ribeiro
werbeth ribeiro disse: 24 setembro 2013
Infelizmente, muitas entidades sem fins lucrativos são, na realidade, lucrativas ou atendem os interesses dos próprios usuários. Um clube esportivo, por exemplo, é sem fins lucrativos, mas beneficia somente os seus respectivos sócios. Muitas escolas, universidades e hospitais eram no passado, sem fins lucrativos, somente no nome. Por isto, estes números chegam a 220.000.
Imprensa
Até 1995, a pouca cobertura que a Imprensa fazia sobre o terceiro setor era, normalmente, negativa. Com a descoberta de que a maioria das entidades é séria e, portanto, faz bom trabalhos, este setor ganhou respeitabilidade. Com isso, quadruplicou a centimetragem de notícias sobre o terceiro setor. A missão agora é transformar este novo interesse em cobertura constante.
As empresas tentam causar uma primeira boa impressão ao fazer produtos com qualidade, tratar o cliente como um rei, com o objetivo de torná-los leais à marca e fidelizá-los.

O problema desse paradigma é que você só causa uma boa impressão se, e somente se, o cliente decidir fazer a sua primeira compra.
werbeth ribeiro dos inocentes
werbeth ribeiro dos inocentes disse: 24 setembro 2013
Infelizmente, muitas entidades sem fins lucrativos são, na realidade, lucrativas ou atendem os interesses dos próprios usuários. Um clube esportivo, por exemplo, é sem fins lucrativos, mas beneficia somente os seus respectivos sócios. Muitas escolas, universidades e hospitais eram no passado, sem fins lucrativos, somente no nome. Por isto, estes números chegam a 220.000.
Imprensa
Até 1995, a pouca cobertura que a Imprensa fazia sobre o terceiro setor era, normalmente, negativa. Com a descoberta de que a maioria das entidades é séria e, portanto, faz bom trabalhos, este setor ganhou respeitabilidade. Com isso, quadruplicou a centimetragem de notícias sobre o terceiro setor. A missão agora é transformar este novo interesse em cobertura constante.
As empresas tentam causar uma primeira boa impressão ao fazer produtos com qualidade, tratar o cliente como um rei, com o objetivo de torná-los leais à marca e fidelizá-los.

O problema desse paradigma é que você só causa uma boa impressão se, e somente se, o cliente decidir fazer a sua primeira compra.
werbethmrv
werbethmrv disse: 24 setembro 2013
Infelizmente, muitas entidades sem fins lucrativos são, na realidade, lucrativas ou atendem os interesses dos próprios usuários. Um clube esportivo, por exemplo, é sem fins lucrativos, mas beneficia somente os seus respectivos sócios. Muitas escolas, universidades e hospitais eram no passado, sem fins lucrativos, somente no nome. Por isto, estes números chegam a 220.000.
Imprensa
Até 1995, a pouca cobertura que a Imprensa fazia sobre o terceiro setor era, normalmente, negativa. Com a descoberta de que a maioria das entidades é séria e, portanto, faz bom trabalhos, este setor ganhou respeitabilidade. Com isso, quadruplicou a centimetragem de notícias sobre o terceiro setor. A missão agora é transformar este novo interesse em cobertura constante.
As empresas tentam causar uma primeira boa impressão ao fazer produtos com qualidade, tratar o cliente como um rei, com o objetivo de torná-los leais à marca e fidelizá-los.

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