Brasil e México

Publicado em 03 setembro 2012

É sempre proveitoso examinar a experiência internacional quando queremos compreender a dinâmica de alguns setores da economia brasileira. No caso do mercado imobiliário, algumas comparações úteis podem ser extraídas da realidade mexicana. Os dois países têm muito em comum. Embora o Brasil tenha uma população 70% maior, muito mais extensão territorial e PIB 40% superior ao do México, a renda per capita de ambas as nações é muito parecida, superando 10 mil dólares anuais, dependendo das variações cambiais. Além disso, tanto um como outro deixaram acumular um enorme déficit habitacional (no nosso caso, estimado em cerca de oito milhões de moradias).

A primeira diferença que se percebe na comparação é que os mexicanos têm investido muito no mercado imobiliário, há mais tempo do que nós. Somente após o lançamento do Programa "Minha Casa Minha Vida" ampliamos de modo mais significativo os investimentos habitacionais e alcançamos, em 2011, o patamar de meio milhão de moradias construídas anualmente. Mas, ainda é pouco, se considerarmos a formação anual de um milhão e meio de novas famílias, que também demandam moradia. Com uma população muito menor, o México construiu 50% mais moradias do que nós, no mesmo ano de 2011. E já vem fazendo isso há muito tempo: os investimentos habitacionais mexicanos apresentaram uma taxa média de crescimento de 33% entre 1995 e 2005, enquanto a nossa não chegou a 2,5% no mesmo período.
Considerando a renda per capita e a capacidade de pagamento de brasileiros e mexicanos, o esforço desses últimos foi muito mais significativo e resultou em uma melhora substancial no equacionamento do respectivo déficit habitacional, diferença que somente agora estamos tentando recuperar.

Mas, essa mesma situação deve ser vista, também, por outra perspectiva igualmente importante. O que é causa e o que é efeito? O crescimento do PIB mexicano, muito superior ao brasileiro nas últimas décadas, tem sido equivocadamente explicado como se resultasse integralmente, ora do aproveitamento de grandes reservas petrolíferas, ora da inserção daquele país na ALCA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte). Esses podem ter sido fatores importantes, mas atribuir a eles a responsabilidade exclusiva pela diferença de desempenho econômico é uma explicação simples demais para ser verdadeira. Muito do crescimento mexicano resultou da formação de poupança interna, materializada nos investimentos habitacionais. Ou seja, com efeito direto na produção de riqueza e na melhoria da renda dos mexicanos. Essa é uma lição importante, especialmente em época de dificuldades econômicas globais.
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