Compras Pessoais nos EUA

Publicado em 21 novembro 2012

2 comentários

O Departamento de Comércio dos Estados Unidos divulgou números surpreendentes acerca do movimento de turistas brasileiros para aquele país. No último ano, 1,5 milhão de brasileiros visitaram os EUA, ou seja, 25% a mais do que em 2010. Mas, esse aumento de fluxo vem se acelerando e a previsão é de um crescimento adicional de 274% até 2016. Mais importante do que o número de turistas é a informação de que cada brasileiro está gastando, em média, US$ 5 mil em compras naquele país. À primeira vista, essas notícias podem parecer auspiciosas já que resultam, em parte, do nosso aumento de renda e do crescimento da parcela populacional com acesso a esse tipo de consumo.

Contudo, achei oportuno examinar esses números por outro prisma, menos auspicioso e, talvez, mais importante como indicativo de uma distorção que precisa ser combatida. Na prática, o que está, realmente, por trás de um volume tão exagerado de compras pessoais nos EUA? Os brasileiros, como de resto os turistas de muitos outros países, já descobriram que uma grande variedade de produtos, adquiridos como compras pessoais nos EUA, é muito mais barata do que nas suas regiões de origem. Essa desproporção é muito grande no caso da comparação com os preços praticados no nosso mercado interno, já que estes resultam de processos regulares de importação ou fabricação, sujeitos a uma carga elevadíssima de impostos e incorporando despesas igualmente altas com o chamado "Custo Brasil" (frete, desembaraço aduaneiro, estocagem, transporte, distribuição, etc.). Do outro lado, os EUA vêm diminuindo progressivamente os seus impostos, que já eram significativamente menores do que os nossos, fornecendo alguns incentivos especiais ao comércio e à indústria e, principalmente, desfrutando de uma infraestrutura invejável, que reduz muito os mencionados custos de importação, fabricação, distribuição, transporte, estocagem e venda.

Na prática, quem compra uma peça de vestuário, um aparelho eletrônico ou um artigo esportivo nos EUA, por um preço até três vezes menor do que o dos produtos equivalentes que encontraria no Brasil – tanto aqueles que são produzidos aqui, como os regularmente importados – está deixando por lá, parte da sua renda. Em outros termos, ao aproveitarem-se das vantagens do grande entreposto comercial em que se transformaram os EUA, os turistas brasileiros e de muitos outros países, que às vezes compram, ali, enxovais inteiros, estão transferindo para aquele país empregos e impostos. Estima-se que essa "operação formiguinha" dos turistas brasileiros, espontânea e não coordenada, poderá transferir, em 2012, só para os EUA, dependendo do movimento de fim de ano, um montante superior a U$ 9,5 bilhões, ou seja, mais de 0,4% do nosso PIB. É muita coisa. É quase um terço de tudo o que conseguiremos crescer este ano.

A atitude de quem compra e se aproveita dessas vantagens é perfeitamente natural, como também, nenhuma crítica pode ser feita aos EUA por terem uma infraestrutura eficiente, uma economia organizada e impostos saudavelmente baixos. A distorção tem que ser combatida, sem protecionismo, em outro polo: na elevadíssima carga tributária nacional e no escandaloso "Custo Brasil", os reais responsáveis pela perigosa sangria de empregos, renda e impostos, materializada nas compras pessoais feitas nos EUA.
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2 comentários para "Compras Pessoais nos EUA"

Rosangela Bomtempo
Rosangela Bomtempo disse: 21 novembro 2012
O interessante de nosso país, é que enquanto parte da polução com poder aquisitivo compra nos EUA aumentando a renda e emprego em outro país, no Brasil cresce o mercado informal, e o brasileiro aquece suas compras de natal adquirindo mercadorias no mercado paralelo. A oferta de produtos similares esquenta e o desejo de adquirir uma bolsa, uma camisa com etiqueta leva o consumidor a comprar produtos inclusive na rua.
Atendimeneto MRV Engenharia
Atendimeneto MRV Engenharia disse: 29 março 2016
Olá Luciene, tudo bem? Temos várias opções de empreendimentos em Aracaju. Acesse o nosso site http://www.mrv.com.br/imoveis/sergipe/aracaju e confira!
Valmir Alves da Silva
Valmir Alves da Silva disse: 24 novembro 2012
Tudo parece uma simples questão de inversão e acréscimo. Os mesmos fonemas que usamos para grafar o substantivo CRISE, usamos também para conjugar o verbo crescer na primeira pessoa do singular no pretérito perfeito:" CRESCI". Apenas uma inversão de lugar das vogais E, I, acrescentando a letra c, podemos instigar a capacidade de virada e retomada do processo de crescimento. Podemos perceber que, com pequenas sementes de palavras em artigos como esse escritos pelo Rubens, renasce a esperança de um dia ver brotá-las nas mentes de nossos governantes, para que ajam de maneira mais consciente, diminuindo nossa elevadíssima carga tributária nacional e com isso, possam acelerar um crescimento econômico pautado numa organização política séria e eticamente responsável.

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