Endividamento das Famílias (2)

Publicado em 16 julho 2013

2 comentários

Em outubro do ano passado, publiquei neste blog, sob este mesmo título, uma análise expedita acerca deste assunto, motivada pelo fato de que, dois meses antes (agosto de 2012), o endividamento bancário das famílias brasileiras, excluídas as dívidas rotativas com fornecedores de serviços correntes (telefonia, energia, etc.), o financiamento imobiliário e o crediário feito diretamente nas lojas de varejo, tinha alcançado 31,49% da respectiva renda média anual, ultrapassando o recomendável limite de 30%. Na realidade, esse indicador inclui, apenas, as dívidas de natureza bancária (crédito pessoal, rotativo do cartão de crédito e do cheque especial, financiamento de bens duráveis, etc.) e o percentual que acendeu o sinal amarelo (31,49%) foi o mais alto observado no país, em todos os tempos.


Na mesma abordagem, reproduzi algumas regras gerais de comportamento financeiro, estabelecidas pelo senso comum em quase todos os países, que devem prevalecer sempre que as famílias não dispõem de métodos mais cuidadosos de planejamento orçamentário e acompanhamento das despesas. Essas regras recomendam que os gastos correntes sejam distinguidos dos investimentos e de outras despesas assemelhadas (seguro de saúde, planos de aposentadoria, casa própria e outras aplicações), para que os primeiros possam ser controlados de modo mais efetivo e não ultrapassem o limite prudencial de 30% das receitas mensais líquidas de cada família.


Interessante observar que, transcorridos nove meses e considerando todo o período com dados já disponibilizados pelo Banco Central (abril de 2013), o endividamento bancário das famílias brasileiras caiu mais de 1,00%, situando-se em 30,47% da renda anual média, já nas proximidades do limite prudencial de 30%. Houve, realmente, uma nítida mudança no perfil de gastos das famílias brasileiras no período, com a redução das despesas feitas com itens supérfluos ou menos essenciais, em que pesem os estímulos governamentais em favor do consumo.


Mais interessante ainda, observar os resultados quando se agregam, ao endividamento bancário, as parcelas de investimento para formação do patrimônio familiar com o financiamento da casa própria, no mesmo período. Nesse caso, o percentual do endividamento familiar bruto aumenta ligeiramente (de 43,77% em agosto de 2012 para 44,23% em abril de 2013), mas o comprometimento total da renda familiar mensal cai significativamente no mesmo período (de 22,63% em agosto de 2012 para 21,54% em abril de 2013). Essa queda é mais emblemática quando se observa que, em passado não muito distante, o comprometimento da renda familiar mensal esteve em patamares ainda mais elevados (22,94% em junho de 2012). Há que se registrar, por oportuno, que mais de uma terça parte desse percentual (8,3%) corresponde aos gastos com o pagamento de juros nas diversas modalidades de crédito tomadas pelas famílias. A queda no comprometimento da receita mensal resulta, basicamente, do alongamento do perfil do endividamento familiar, pela substituição de créditos de curto e médio prazos tomados para a compra de bens de consumo não duráveis ou de serviços menos essenciais pelo financiamento imobiliário de longo prazo, paralelamente ao aumento ainda persistente dos salários e da renda (especialmente as remunerações no setor de serviços).


Além dos dados oficiais sobre o endividamento bancário, há que se considerar, também, a pesquisa feita por amostragem (18.000 consumidores) pela CNC – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Essa amostra, que inclui, todos os tipos de dívida (cartão de crédito, cheque especial, carnês de lojas, cheques pré-datados, empréstimo pessoal, prestações de veículos, seguros, casa própria, etc.) aponta, para o mesmo mês de abril de 2013, o percentual de 62,9% de famílias endividadas, conquanto o perfil de inadimplência tenha se reduzido de 23,6% em maio de 2012 para 21,5% em abril de 2013.


O fato concreto evidenciado pelos indicadores resumidamente mencionados nos parágrafos antecedentes é que a situação atual das famílias brasileiras, em média, está melhor equilibrada e financeiramente mais robusta do que a que examinamos em meados do ano passado. Mas, isso não quer dizer que os esforços familiares para a contenção de gastos supérfluos e sua substituição por poupança ou investimento não devam ser continuados ou ampliados. E nessa saudável mudança de hábitos, existe um razoável espaço para a intensificação dos esforços em benefício da formação do patrimônio familiar, representado, principalmente, pelos investimentos na casa própria.

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2 comentários para "Endividamento das Famílias (2)"

valdirene
valdirene disse: 20 julho 2013
Boa tarde Sr. Rubens,isso não é um comentário e sim uma dúvida, sou solteira s/filhos tenho 28 anos e trabalho a mais de 7 anos em casa de família, ganho um pouco mais de um salário mínimo. Gostaria de saber como funciona a compra de um apto com o parcelamento de R$99,00. Moro em Ubatuba-SP.

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