Importância da Qualificação da Mão de Obra

Publicado em 22 julho 2014

5 comentários

A retomada do crescimento econômico no Brasil é uma questão de importância imediata, se quisermos eliminar qualquer hipótese catastrófica de desordem financeira grave – situação que pode servir de rastilho para desajustes sociais e políticos igualmente preocupantes. Mas, se conseguirmos arrumar a casa em prazo curto, usando o conhecido e disponível arsenal de providências ajuizadas, restaria ainda outra batalha mais complexa e difícil: garantirmos o desenvolvimento continuado em prazo mais longo, para que possamos mudar de patamar e buscarmos o enriquecimento da nossa população.


Esse segundo desafio exigirá disciplina e aplicação, mas, sobretudo, visão estratégica e planejamento prospectivo de longo alcance. O crescimento sustentável, que propicia o enriquecimento das nações, ocorre quando se consegue aumentar, continuadamente, a utilização dos fatores básicos, capital e trabalho. Não temos conseguido isso, nos últimos anos. Pelo lado do capital, insumo indispensável para os investimentos, as nossas limitações são evidentes, seja em decorrência da baixíssima capacidade interna de poupança nacional, seja, agora, pela dificuldade de atrairmos poupança externa complementar. Pelo lado do trabalho, já aproveitamos quase todo o estoque de mão de obra disponível no país (mesmo a de baixa qualificação), situação retratada pela pequena taxa atual de desemprego e pelo grande contingente daqueles que estão afastados das ocupações formais por conta dos programas de benefícios distribuídos pelo governo. Esse último aspecto produz, também, outras conseqüências inconvenientes que precisarão ser consideradas de pronto, quais sejam, as pressões inflacionárias decorrentes da elevação dos salários acima dos ganhos de produtividade (característica comum nos regimes de pleno emprego) e o incremento dos custos de produção, que gera o aumento dos preços dos produtos e a perda de competitividade.


De forma simplificada, podemos vislumbrar um rumo geral para a solução do quadro problemático descrito no parágrafo antecedente, supostas como equacionáveis asquestões do aumento da poupança interna e da retomada da atratividade do país para os investidores externos: a otimização do fator trabalho via aumento da produtividade. O número de homens-hora envolvidos em qualquer atividade produtiva, para uma mesma quantidade de produto, terá que diminuir continuamente. Isso pode ser alcançado com a conjunção de dois esforços: a melhoria do ambiente de produção com o uso intensivo de equipamentos e tecnologia moderna de automação, e a qualificação da mão de obra por meio da melhoria educacional, do treinamento "on the job" e da capacitação geral. Uma política desse tipo permitiria "alongar ou espichar" o estoque de mão de obra existente, já que um número menor de funcionários mais qualificados poderia produzir a mesma quantidade que vêm sendo produzida pelos times atuais, menos qualificados. Ou, por outro lado, com o mesmo contingente atual, desde que melhor qualificado, alcançarmos maior volume de produção. Estou particularmente convencido de que essa é a saída para o crescimento econômico continuado e para o conseqüente enriquecimento da nossa população.


Só que essa não é uma tarefa fácil. Exigirá uma política de Estado corajosa, objetiva, focada e eficiente, para garantir progressivo e continuado aumento nos níveis gerais de educação e formação técnica. Não estou inovando nada com essa percepção. Outros países desenvolvidos têm investigado em profundidade a relação entre todos esses fatores e projetado as situações futuras para embasar a tomada de decisões com a maior antecedência possível. Recentemente, tive condições de ler e examinar um interessantíssimo relatório, publicado nos EUA sob o título "The Global Workforce Crisis", elaborado pelo prof. Rainer Strack e outros pesquisadores do prestigioso Boston Consulting Group - BCG. Esse estudo examina as condições atuais e futuras da força de trabalho em 25 países (que abrigam 65% da população mundial e que são responsáveis por 80% do PIB global). A estratégia geral de abordagem adotada no estudo do BCG foi a de estimar, em um horizonte relativamente longo, a taxa de crescimento da produtividade do trabalho necessária para que cada país pudesse continuar apresentando o mesmo índice de enriquecimento per capita observado no passado recente, considerados os crescimentos dos respectivos PIBs, força de trabalho e população total. Alguns resultados são muito interessantes: segundo oBCG, os EUA apresentam uma situação futura muito equilibrada, enquanto outros países (Alemanha, Brasil, Polônia, Rússia e Japão) apresentariam situações particularmente críticas no futuro e dependeriam de modificações imediatas nas respectivas políticas educacionais e de formação técnica. Só a título de exemplo, o estudo em tela aponta que a Alemanha já apresentará falta de mão de obra em 2015 e esse quadro decorre de fatores muito semelhantes aos observados atualmente mo Brasil.  A taxa de desemprego na Alemanha situa-se, atualmente, em 6,7% (maio de 2014) e já não é possível, ali, atender as demandas correntes por engenheiros, profissionais de informática e outros perfis da área tecnológica. Mas, na Alemanha, as políticas de Estado já estão sendo ajustadas para enfrentar o desafio, incluindo os estímulos para a importação intensiva de profissionais qualificados. Ainda como exemplo, segundo o mesmo estudo, os EUA deverão apresentar um razoável excedente de força de trabalho por bastante tempo (cerca de 19,6 milhões de trabalhadores em 2020 e 7,4 milhões em 2030).


Bem, para ater-me ao espaço disponível neste blog, gostaria de enfatizar, como conclusão, que um esforço nacional pela qualificação da nossa mão de obra deveria ser imediatamente ativado como política de Estado, de forma objetiva e eficaz (sem corporativismo), não apenas para melhorar o equacionamento econômico geral, mas, também, para garantir a prosperidade futura e continuada da nação. Nunca foi tão importante educar.

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5 comentários para "Importância da Qualificação da Mão de Obra"

Luiz Fernando
Luiz Fernando disse: 22 julho 2014
Belo material, sem dúvida.
Desde que eu era criança, escutava meu pai (oficial do exército brasileiro) dizer que investir no conhecimento é a melhor das qualificações.

Eu cresci ouvindo e vendo isso. Países devastados por guerras, bombas, pragas, pestes, anteriormente, hoje fazem parte das maiores economias mundiais, ou simplesmente caminham a passos largos para isso.
Muitos destes países são asiáticos. E é para lá que o mundo se curva atualmente. Passos mais largos que o nosso inclusive.

Educação. Políticas públicas, investimentos pesados em qualificação do corpo docente, programas sérios de inclusão digital desde cedo, entre outras medidas, como grandes corporações fazendo parcerias reais de qualificação técnica, ainda na escola, fazem de países como China e Coréia, por exemplo, um novo "Japão" na Ásia.

Citando apenas 1 área, fora da nossa construção civil, sabiamente já sofredora de um apagão de mão de obra. TI. A demanda simplesmente é o dobro da mão de obra formada.

Isso trava o crescimento das empresas do setor. Obviamente, vai travar toda uma cadeia econômica em torno dela, e aí vemos um crescimento pífio de 1% no PIB e o governo nem sabe porque. Nós sabemos.
Rubens Menin
Rubens Menin disse: 24 outubro 2012
Olá Valdir Ferreira. A que se refere?
valmir marques da silva
valmir marques da silva disse: 22 julho 2014
o engraçado é que essa mão de obra em nosso país é quase toda feita de negros e mulatos em nosso país...na foto todos são suecos, noruegos e alemães. Publicitários não aprendem nunca..
Rafael Almeida Prado Valentim
Rafael Almeida Prado Valentim disse: 23 julho 2014
Por isso se faz tão essencial nossa gestão de conhecimento à nível MRV e Brasil, por assim dizer. Devemos "bater aqui, pra atingir lá". Modo de dizer quando objetivamos um efeito, mas focamos nossas ações nas causas geradoras do mesmo. Isso é sabedoria estratégica. Qualquer tipo de resultado gerado, é fruto de um conjunto de causas. Lei Socrática.
Celia Amaral
Celia Amaral disse: 24 julho 2014
Voçê se qualifica, vai para uma obra ou escritório,seus superiores junto c/ o prefeito (no caso BH),muda o projeto pra superfaturar, a obra vai ao chão, depois diz que a culpa foi do profissional.Assim não dá, assim não dá.Mesmo assim não desani mem, vão em frente porque UM DIA, qdo prender alguem a coisa pode melhorar para o profissional honesto
Rubens Menin
Rubens Menin disse: 26 outubro 2012
Olá, Vanessa. Obrigado pelo comentário.
Rute Custodio
Rute Custodio disse: 06 agosto 2014
Acredito que para se ter mão de obra de qualidade é de fundamental importância investir em educação. Comecei a ler os artigos deste blog , onde pude encontrar ressonância com idéias que compartilho.

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