Investimentos (3)

Publicado em 21 dezembro 2012

Para encerrar esta série sobre investimentos, gostaria de começar analisando os efeitos do IED sobre o equilíbrio das nossas contas externas. A contabilidade nacional é intrinsecamente igual àquela que ocorre no âmbito de qualquer família ou empresa. As trocas de dinheiro de qualquer país com o exterior, efetivadas com moedas divisionárias (dólares, euros, etc.), são comparáveis aos orçamentos domésticos em que as saídas correspondem aos gastos e as entradas correspondem às receitas. Sempre que as saídas superam as entradas, as diferenças têm que ser bancadas pelo estoque de reservas nacionais em moedas divisionárias ou, na inexistência de saldo positivo nesse estoque, pela tomada de empréstimos internacionais ou outras formas de financiamento, em idêntica proporção.


Nas situações críticas, quando algum país não dispõe de reservas ou não consegue empréstimos e financiamentos para cobrir o excesso de saídas em relação às entradas, torna-se quase inevitável o recurso à moratória (interrupção unilateral ou negociada de pagamentos ao exterior) e, quase sempre, não há mais como importar alguns bens ou serviços essenciais ao consumo doméstico. A comparação com o ambiente familiar continua a mesma: nessas situações críticas, não há mais como ir ao supermercado ou armazém comprar, por exemplo, os alimentos que não são produzidos na horta da própria casa.


Em escala nacional essa complexa contabilidade é organizada na forma da balança de pagamentos, que nada mais é do que um instrumento de controle das trocas financeiras com o exterior. A balança de pagamentos inclui, não apenas os fluxos de capitais (entre os quais o IED), como também as chamadas transações correntes (exportações, importações, compra e venda de serviços, gastos com fretes, turismo e seguros, recebimentos e remessas de juros e lucros, valores enviados para ou por imigrantes e turistas, além das demais formas de transferências monetárias equivalentes). Uma parte desses fluxos é controlada em subconta especial, denominada de balança comercial, utilizada, principalmente, para destacar a contabilização das exportações e importações, ou seja, das trocas comerciais diretas do país com o exterior.


A balança comercial brasileira tem sido persistentemente favorável ao Brasil (exportamos mais do que importamos), embora esse saldo venha diminuindo de forma preocupante nos últimos anos (de US$ 44,9 bilhões em 2005 para algo em torno de US$ 17,0 bilhões projetados para 2012). No entanto, quando contabilizados os demais fluxos que compõem as transações correntes (especialmente os pagamentos de juros, as remessas de lucros e os custos de alguns serviços) o cenário fica muito mais desfavorável (com a queda de um saldo positivo de US$ 14,0 bilhões em 2005 para um déficit da ordem de US$ 53,0 bilhões projetado para 2012). A balança de pagamentos somente deixou de ficar negativa no mesmo período (2005 a 2012), o que comprometeria as nossas reservas internacionais, por conta da contribuição dos aportes de capital feitos na modalidade de IED. Mesmo assim, partimos de um saldo positivo de US$ 29,1 bilhões em 2005 para algo da ordem de US$ 13,8 bilhões projetado para 2012. Em outros termos, as necessidades de obtenção de financiamentos externos, computadas como a diferença entre o saldo das transações correntes e o ingresso de IED, partiram da confortável situação de -3,29% do PIB em 2005 para apenas -0,60% do PIB projetado para 2012.


Para completar essa análise expedita sobre os investimentos, gostaria de registrar a minha opinião acerca dos requisitos essenciais para a atração crescente de IED. Considerando que serão mantidas as conquistas de estabilidade advindas do Plano Real, especialmente no que diz respeito à responsabilidade fiscal e ao controle da inflação, é preciso avançar na consolidação de um ambiente estável e favorável aos negócios. Isso inclui alguma desregulamentação, a segurança jurídica (notadamente no que concerne ao respeito às condições contratadas), a melhoria da governança regulatória e a diminuição das interferências governamentais na economia. Esses mesmos requisitos aplicam-se, também, às exigências básicas para incentivo aos investimentos internos, tanto públicos quanto privados. Em relação a esses últimos, gostaria de enfatizar, mais uma vez, o potencial representado pela construção civil, seja nas obras de infraestrutura, seja no segmento habitacional. Existem, no país, capitais internos e competência empresarial para um incremento significativo no volume de investimentos em moeda nacional, que poderiam superar bastante os aportes de IED, desde que removidos alguns empecilhos já apontados neste blog. O importante é ultrapassarmos, com rapidez, o patamar de 20% do PIB em que se situa renitentemente a nossa taxa de investimento.

  • COMPARTILHE:

Deixe uma resposta O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também

Renda Per Capita Líquida

Publicado em 08 março 2017

O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – órgão vinculado ao Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão – acaba de divulgar os resultados principais das contas nacionais do exercício de 2016, quais sejam, o PIB – Produto Nacional Bruto e seus derivados diretos. O PIB, na realidade, corresponde à soma de todas as riquezas produzidas dentro do território nacional (desconsiderados os recebimentos recebidos do e as remessas enviadas para o exterior). Essa variável inclui...
Leia mais »

2017 vem aí!

Publicado em 29 dezembro 2016

3 comentários

É fácil aferir o sentimento dos brasileiros acerca do ano que está terminando. À medida que se aproxima o dia da virada de exercício, as manifestações, íntimas ou públicas, da grande maioria dos nossos patrícios só variam na forma ou no adjetivo de qualificação, mas, em geral, quase todas convergem para uma constatação fortemente depreciativa: vai-se embora um ano que não deixa saudades! De fato, foi um ano em que vivemos turbulências políticas e desastres econômicos sucessivos, que acabaram...
Leia mais »

Excesso de Justiça Não é Coisa Boa

Publicado em 31 agosto 2016

1 comentários

Existe uma enorme diferença entre uma sociedade estruturada com base em relações justas entre os cidadãos, com a observância geral dos direitos e sem a prepotência imposta pelos mais fortes, e outra em que os mecanismos de Estado utilizados para garantir essas mesmas relações justas e isonômicas são excessivamente exigidos, apresentam-se permanentemente congestionados e funcionam com intensidade além das expectativas razoáveis. Na primeira hipótese, temos uma situação equilibrada e saudável,...
Leia mais »

Juros Altos: Como Enfrentar Esse Inimigo

Publicado em 25 maio 2016

Antes de 1994, quando a URV (Unidade Real de Valor) foi substituída definitivamente pelo Real (a nova moeda que circula até hoje), a inflação era, de longe, o maior inimigo dos brasileiros e de nossa economia. De fato, àquela altura (junho de 1994), a inflação mensal era de 47,43% e a inflação anual alcançava o inacreditável patamar de 4.922%. Ou seja, o preço de todos os bens ou serviços subia quase 50% em um único mês, entre dois recebimentos consecutivos do mesmo salário!  Essa balbúrdia...
Leia mais »

Mazelas da Indústria

Publicado em 13 abril 2016

2 comentários

Os diversos fatores (internos e externos) que concorreram para debilitar a economia brasileira no momento atual combinam-se de maneira diferenciada em sua ação deletéria pelos diversos setores e segmentos. Por isso, algumas atividades acusaram mais rapidamente os seus efeitos. Também por isso, outros segmentos foram afetados mais fortemente. No presente tópico, quero destacar especificamente o comportamento do setor industrial nessa época de crise e alinhavar algumas das características...
Leia mais »