Lições da Virada Americana

Publicado em 23 novembro 2012

A grande crise financeira internacional, que em maior ou menor intensidade ainda afeta todas as nações, teve a sua origem no mercado imobiliário norte-americano, de onde se propagou pelo mundo globalizado na esteira de muitos outros fatores de desorganização econômica e estrutural pré-existentes. Interessante observar, no entanto, que os EUA estão se recuperando dessa crise mais rapidamente do que muitos outros países desenvolvidos e, mais interessante ainda, que essa recuperação está sendo estimulada, entre outros fatores, justamente pela forte retomada das atividades no mercado imobiliário norte-americano.



Nos países onde os fatores de desorganização econômica e estrutural pré-existentes eram mais críticos, os efeitos da crise ainda perduram ou, até mesmo, se intensificam. É o caso da Espanha, da Grécia e da Itália, por exemplo, que enfrentam taxas elevadíssimas de desemprego, decréscimo continuado do PIB ou problemas graves de insolvência geral. O Japão e a União Europeia (com a exceção particularíssima da Alemanha, onde as condições pré-existentes eram significativamente mais saudáveis), estão às voltas com uma estagnação econômica, já bastante longa e sofrida.

Os dados divulgados pela Conferência das Nações Unidas Sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) mostram, com nitidez, a diferença nas performances das economias americana e europeia quanto às respectivas capacidades de virada e de retomada dos níveis anteriores de atividade. De fato, segundo essa Agência da ONU, a taxa de crescimento econômico dos EUA subirá de 1,7% em 2011 para 2,0% neste ano de 2012. Na comparação, a situação da Europa, segundo a mesma fonte, será preocupantemente pior, com a taxa de crescimento econômico do bloco caindo de 1,5% em 2011 para o valor negativo de -0,3% no corrente exercício de 2012, ou seja, um quadro de efetiva recessão. Outros indicadores reforçam as expectativas otimistas em relação à economia norte-americana. É o caso, por exemplo, dos resultados apresentados pelo quadro geral de emprego nos EUA, com a criação líquida de 114.000 novas vagas no mês de setembro deste ano, circunstância que resultou na redução do nível de desemprego para 7,8%, o menor valor já registrado desde 2009 nas séries divulgadas pelo Departamento do Trabalho daquele país.

Evidentemente, a existência de uma economia robusta e sólida nos EUA favoreceu esse movimento de virada. No entanto, outros importantes fatores concorreram para o êxito desse esforço e merecem ser examinados por todas as outras nações em dificuldades, inclusive pelo Brasil, que já apresentará, neste ano, crescimento econômico muito inferior ao norte-americano. Com efeito, em primeiro lugar há que ser considerada a política comandada pelo FED – uma instituição semipública, que exerce, nos EUA, funções equivalentes às do nosso Banco Central – e que tem mantido a taxa básica de juros na faixa de 0,0% a 0,25% ao ano, contribuindo para a melhoria do poder de compra dos norte-americanos, sem criar pressões inflacionárias. Outra decisão importante do FED resultou da aplicação de U$ 2,3 trilhões no resgate de dívidas públicas e em hipotecas do mercado imobiliário, injetando a necessária liquidez na economia norte-americana, para que novos investimentos e negócios pudessem ser ativados.

Evidentemente, esses movimentos, que trouxeram bons resultados para a economia norte-americana, agravaram algumas situações inconvenientes para outros países, incluindo o Brasil, especialmente no que diz respeito à formação de taxas de câmbio mais desfavoráveis e, por consequência, à inversão dos fluxos de comércio e do balanço de pagamentos. Mas, por isso mesmo, algumas lições das estratégias norte-americanas merecem ser melhor examinadas. No mínimo, para que medidas equivalentes, neutralizadoras, reequilibrantes ou rebalanceadoras possam ser estabelecidas aqui. E algumas estão ao nosso alcance imediato, como, por exemplo, a reativação plena dos programas governamentais de financiamento à habitação popular.
  • COMPARTILHE:

Deixe uma resposta O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também

Renda Per Capita Líquida

Publicado em 08 março 2017

O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – órgão vinculado ao Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão – acaba de divulgar os resultados principais das contas nacionais do exercício de 2016, quais sejam, o PIB – Produto Nacional Bruto e seus derivados diretos. O PIB, na realidade, corresponde à soma de todas as riquezas produzidas dentro do território nacional (desconsiderados os recebimentos recebidos do e as remessas enviadas para o exterior). Essa variável inclui...
Leia mais »

2017 vem aí!

Publicado em 29 dezembro 2016

3 comentários

É fácil aferir o sentimento dos brasileiros acerca do ano que está terminando. À medida que se aproxima o dia da virada de exercício, as manifestações, íntimas ou públicas, da grande maioria dos nossos patrícios só variam na forma ou no adjetivo de qualificação, mas, em geral, quase todas convergem para uma constatação fortemente depreciativa: vai-se embora um ano que não deixa saudades! De fato, foi um ano em que vivemos turbulências políticas e desastres econômicos sucessivos, que acabaram...
Leia mais »

Excesso de Justiça Não é Coisa Boa

Publicado em 31 agosto 2016

1 comentários

Existe uma enorme diferença entre uma sociedade estruturada com base em relações justas entre os cidadãos, com a observância geral dos direitos e sem a prepotência imposta pelos mais fortes, e outra em que os mecanismos de Estado utilizados para garantir essas mesmas relações justas e isonômicas são excessivamente exigidos, apresentam-se permanentemente congestionados e funcionam com intensidade além das expectativas razoáveis. Na primeira hipótese, temos uma situação equilibrada e saudável,...
Leia mais »

Juros Altos: Como Enfrentar Esse Inimigo

Publicado em 25 maio 2016

Antes de 1994, quando a URV (Unidade Real de Valor) foi substituída definitivamente pelo Real (a nova moeda que circula até hoje), a inflação era, de longe, o maior inimigo dos brasileiros e de nossa economia. De fato, àquela altura (junho de 1994), a inflação mensal era de 47,43% e a inflação anual alcançava o inacreditável patamar de 4.922%. Ou seja, o preço de todos os bens ou serviços subia quase 50% em um único mês, entre dois recebimentos consecutivos do mesmo salário!  Essa balbúrdia...
Leia mais »

Mazelas da Indústria

Publicado em 13 abril 2016

2 comentários

Os diversos fatores (internos e externos) que concorreram para debilitar a economia brasileira no momento atual combinam-se de maneira diferenciada em sua ação deletéria pelos diversos setores e segmentos. Por isso, algumas atividades acusaram mais rapidamente os seus efeitos. Também por isso, outros segmentos foram afetados mais fortemente. No presente tópico, quero destacar especificamente o comportamento do setor industrial nessa época de crise e alinhavar algumas das características...
Leia mais »