O Estado Grande Quebrou

Publicado em 15 setembro 2015

23 comentários

Depois que o leite derrama sempre fica mais fácil identificar as causas da catástrofe; e os espíritos mais propensos a enxergar as coisas sem preconceito ou dogmatismo passam a apontar unanimemente os culpados (líderes, opções ideológicas, técnicas pouco eficientes de gestão, escolhas equivocadas na seleção de políticas de Estado, corrupção, circunstâncias adversas, etc.). No entanto, durante o processo que culminou com o derrame do leite, as opiniões são muito mais controversas e nem sempre o panorama é descortinado com clareza e objetividade.


Estamos exatamente nesse trecho da estrada, com uma aguda crise política e econômica, que lança trevas de incerteza no futuro imediato e atinge fortemente o bem-estar da sociedade. Em resumo: uma catástrofe para os que ficam desempregados, para os que perdem renda, para os desassistidos, para os inadimplentes e também para aqueles que se afligem com o recrudescimento inflacionário, com o sumiço dos investimentos ou com as ameaças de aumento descontrolado dos impostos. Nesse estágio, já se dissemina um diagnóstico predominante e mais compartilhado: o Estado cresceu descontroladamente; sua manutenção ficou caríssima; e esse monstro corporativo, que vê um fim em si mesmo, trata de avançar ainda mais sobre os salários e a renda dos cidadãos que o sustentam.


Mas, nem sempre as coisas foram vistas dessa forma, ainda que o hipertrofismo do Estado já viesse se exibindo há muito tempo. Para ser preciso, as coisas começaram a sair do controle ainda ao tempo da ditadura militar, na década de 1970. Esse crescimento anormal não era muito comentado e sequer observado pela maioria da sociedade. Pelo contrário, os brasileiros acostumaram-se a ver o Estado como um reservatório inesgotável de recursos abundantes e fartos, capaz de tudo prover e a todos distribuir benesses e agrados. Criou-se uma dependência das pessoas em relação a essa super-máquina, que não cria dinheiro e nem produz valor, e cuja manutenção custa cada vez mais à nação. Somente agora, com a apresentação da assustadora conta junto com os seus efeitos perversos na vida dos cidadãos, o panorama passou a ser visto com mais objetividade por uma parcela maior da sociedade. Mas nem por todos, apesar do elevado índice de rejeição dos governantes. Infelizmente, muitos dos que criticam e rejeitam não querem mudar o modelo fatídico: apenas julgam os governantes atuais incompetentes para continuar a distribuir as benesses com que já estavam acostumados e torcem para que apareçam outras fadas benfazejas capazes de restaurar e ampliar a gastança.


Nada como a análise de um exemplo histórico para ajudar na reflexão sobre o tamanho do buraco em que caímos. A cidade de Brasília é um símbolo perfeito do Estado brasileiro. Aliás, foi feita para que as nossas instituições públicas se exibissem em todo o seu esplendor, com palácios belíssimos, monumentos graciosos, sede de ministérios (naquela época eram apenas 17 prédios projetados para abrigar todos os ministérios e repartições importantes), além das outras estruturas funcionais que ainda não haviam sido acrescidas dos muitos e variados anexos e puxadinhos que vieram depois. Não quero aqui – e nem há espaço para isso – analisar os benefícios e os malefícios da construção da nossa bela Capital. Mesmo porque, muitos deles são intangíveis, como o estímulo à interiorização do desenvolvimento econômico e à ocupação territorial. O que interessa nesse exemplo é examinar o esforço financeiro do Estado para construir a cidade em menos de quatro anos, e cotejá-lo com a possibilidade de se reproduzir a aventura no presente.


Ninguém sabe direito quanto custou a construção de Brasília. E muito menos quanto custa atualmente a sua manutenção operacional. Os números que existem são muito controversos e chegaram a envolver, inclusive, estimativas do ex-Embaixador norte-americano, Lincoln Gordon. Aquele diplomata declarou ao Congresso do seu país que os investimentos na urbanização do plano-piloto, na construção dos prédios básicos, do lago e das amplas obras de terraplenagem teriam custado cerca de US$ 1,6 bilhão, em dólares da época. Em moeda de hoje, essa quantia astronômica estaria próxima de US$ 100 bilhões e, se convertida na moeda nacional, implicaria a estratosférica soma de R$ 345 bilhões, ou seja, mais de 6% do nosso enfraquecido PIB. Nunca é demais lembrar, para efeito de comparação, que o polêmico déficit apresentado pela proposta orçamentária enviada recentemente ao Congresso Nacional seria, apenas, da ordem de 0,5% do PIB.


Como conclusão: se quiséssemos ou precisássemos construir uma nova capital hoje, para acomodar o nosso avantajado Estado e suas repartições, não teríamos recursos para nos desincumbirmos da tarefa. A nação apequenou-se e o Estado se expandiu descontroladamente nestes últimos 55 anos.

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23 comentários para " O Estado Grande Quebrou"

Rodrigo Cabral
Rodrigo Cabral disse: 15 setembro 2015
Parabéns por mais um belo artigo!

Gosto muito da frase de Ronald Reagan: "O governo é como um bebê: um canal alimentar com um grande apetite numa ponta e nenhum senso de responsabilidade na outra".
andres mendez
andres mendez disse: 16 setembro 2015
Existe um lado positivo nas crises, servem para unir
Primeiro unem as familias, a seguir unem as empresas e por ultimo unem o povo, mas a ordem e esta
nada se resolve se queremos resolver antes a crise do pais quando temos as nossas crises particulares sem resolver
Andres P Mendez
Andres P Mendez disse: 16 setembro 2015
Existe um lado positivo nas crises, servem para unir
Primeiro unem as familias, a seguir unem as empresas e por ultimo unem o povo, mas a ordem e esta
nada se resolve se queremos resolver antes a crise do pais quando temos as nossas crises particulares sem resolver
jaime alves de oliveira
jaime alves de oliveira disse: 16 setembro 2015
parabéns excelente texto.mostrou muito bem o tamanho da máquina que engole o povo.e governos que não governam para o povo e sim para um apetite voraz em impostos.
andres mendez
andres mendez disse: 16 setembro 2015
Crise é a melhor ferramenta para mudar, avançar, aprender, unir
produzir melhor, assumir responsabilidades, corregir rumos, pedir ajuda de DEUS
Andres P Mendez
Andres P Mendez disse: 16 setembro 2015
Crise é a melhor ferramenta para mudar, avançar, aprender, unir
produzir melhor, assumir responsabilidades, corregir rumos, pedir ajuda de DEUS
alex
alex disse: 16 setembro 2015
Concordo, sobretudo com a frase "apenas julgam os governantes atuais incompetentes"
Josefa Souza
Josefa Souza disse: 19 setembro 2015
LEITE DERRAMADO INFELIZMENTE O QUE NOS RESTA AGORA É FAZER A NOSSA PARTE,ORAR PARA QUE DEUS AJUDE OS NOSSOS GOVERNANTES A SE UNIREM NESTA GRANDE LUTA EM QUE O NOSSO PAÍS ESTÁ PASSANDO,E LUTARMOS PARA QUE HAJA UMA SAIDA COM A AJUDA DE DEUS
Andrade
Andrade disse: 22 setembro 2015
Só a reforma trabalhista destrava o Brasil é dará condição de igualdade aos trabalhadores . O resto tudo história pra boi dormir
Dimas do Nascimento
Dimas do Nascimento disse: 23 setembro 2015
O Estado vem quebrando desde 1988. Promover toda a sorte de benesses sem a devida avaliação de custos e possibilidades de recursos ao longo do tempo. Adicionalmente criam-se diariamente novos serviços, aumentos de salários para uma classe do funcionalismo público e no dia seguinte á outros por um questão de equidade. Hoje Brasília tem renda per capita superior a São Paulo. Mostra a distorção do absurdo. E pior que é uma espiral que será quebrada com a quebra do Estado. Terá que quebrar também nossa cultura de almoço grátis.
sidney dias
sidney dias disse: 24 setembro 2015
Concordo. Entretanto nunca enxerguei em época alguma da minha vida, hoje com 61 anos, empresário nenhum congelar ou diminuir preços para ajudar os cidadãos e consequentemente o governo.
Por esse motivo, sou a favor da cobrança da CPMF para todas as empresas sem distinção com os devidos controles governamental.
Os empresários sempre culpam o governo por tudo e não deixam de cometerem a aumentos abusivos.
lourdesTorsone
lourdesTorsone disse: 24 setembro 2015
Foram construções monstruosas que dão um nivel de vida talvez desnecessário para os nossos governantes.Mas o caso não é esse agora. As dividas que o atual governo fez e que agora com mais impostos quer cobrir numa hora de desemprego, de alta de preços e que se comprova dia a dia que foi divida feita mas que houve roubo por parte do governo Não é justo que o povo seja mais uma vez sacrificado.
Alexsandro
Alexsandro disse: 25 setembro 2015
A situação está ruim e pode piorar ainda mais, pois o cenário internacional também está fragilizado. Não quero ser pessimista, mas estou temeroso quanto ao futuro.
Taciano
Taciano disse: 26 setembro 2015
Tudo bem que a história nos delineia em muito o nosso presente, mas não dizer que a culpa do caos econômico atual tem como causa principal a corrupção, a incapacidade de planejamento, a desonestidade, deslealmente, antipatriotismo do governo petista,de Lula, de Dilma, de seus aliados, que ao invés de governar, administraram em dar sustento a todos os seus militantes e a si próprio, de certa forma magoados com o passado, colocaram no presente,a 12 anos toda a forra para introduzir o socialismo, colocando-nos assim em um país fragilizado e o povo pagando pelos erros dessa organização criminosa de governantes.
Lucas Malachias
Lucas Malachias disse: 26 setembro 2015
Parabéns Rubens Menin, uma análise muito pragmática !

Lucas Malachias
SIDINEI
SIDINEI disse: 02 outubro 2015
JA FALEI MUITAS VEZES TAMBEM, SOBRE INCOMPETÊNCIA DOS GOVERNOS QUE PASSARAM, POREM! PENSANDO MELHOR! LOCALIZEI UM PONTO, QUE PODEMOS MUDAR OS NOMES QUE DAMOS A INCOMPETÊNCIA(FALTA DE CAPACIDADE DE MUDAR O QUE NÃO ESTA FUNCIONANDO, PROCURANDO NOVOS CAMINHOS PARA O RESULTADO ESPERADO)FALTA DE PROCESSOS PARA MUDANÇAS. INDIQUEM NOVOS ATORES COM VISÃO DIFERENTE DAS QUE NORMALMENTE PENSAM PARA INDICAR CAMINHOS NOVOS...OS QUE INSISTENTEMENTE FALAM E NÃO SÃO OUVIDOS E POR FAVOR NÃO ESQUEÇAM DE OUVIR A TODOS....A SURPRESA SEMPRE VEM DAQUELES MENOS ESTIMADOS.
Cindy
Cindy disse: 04 novembro 2015
Oi,
Gostaria de saber se voces vendem propriedades para Brasileiros que vivem no exterior. me manda um e mail por favor.
Rubens Menin
Rubens Menin disse: 23 novembro 2015
Olá Cindy, sim. Entre em contato com um atendente pelo chat para que a equipe de vendas passe mais informações. www.mrv.com.br/imoveis/brasileiros-no-exterior
Rubens Menin
Rubens Menin disse: 27 janeiro 2016
Sim, Cindy. Acesse http://www.mrv.com.br/imoveis/brasileiros-no-exterior e fale com um atendente online 24 horas para tirar suas dúvidas.
marcos oliveira
marcos oliveira disse: 04 novembro 2015
Somos uma empresa do ramo de REFORMAS E construção civil, com experiência na área. (...)
Rubens Menin
Rubens Menin disse: 23 novembro 2015
Olá Marcos, gentileza enviar este contato através do formulário disponível na página mrv.com.br/fornecedores. Agradecemos seu contato.
Jeronimo Borges
Jeronimo Borges disse: 10 novembro 2015
Jeronimo Borges \n "Na minha opinião", vivemos numa ditadura dos partidos políticos. Todos eles elaboram e aprovam as regras em causa própria para se perpetuarem nos cargos. Se unem como sócios para ganhar e dividir o bolo, (coligações partidárias). Eles e não os eleitores escolhem os candidatos, obrigam o povo a votar (voto obrigatório); inúmeros candidatos escolhidos são eleitos com os votos nos partidos (voto de legenda), que elegem filhos de profissionais e maus políticos. Eleitos ou reeleitos, são pau mandados dos donos dos partidos, (votos em bloco ). É possível que mais ou menos 90% dos eleitores brasileiros, despreparados ou semi-alfabetizados e ainda diante de tantos candidatos e partidos, não tenham capacidade ou interêsse de decorar tantos números nem de fazer colinhas. Não sabendo em quem votar, nem em quem estão votando. Revoltados com as decepções, das falsas promessas, de saber que o ato não vai adiantar nada face as regras criadas pelo império político no Brasil, inclusive a obrigatoriedade de votar, decidem a votar na legenda do partido por ser mais fácil. Assim cada partido escolhe o direcionamento do voto de legenda para os inscritos nos seus quadros, o que equivale dizer que o povão não votou neste ou naquele candidato. Isto justifica filhos chegarem facilmente e alguns maus elementos sempre conseguirem a reeleição. Os suplentes de senadores, nem precisam de votos, são indicados por acordos ou presente de papai Noel. Ainda criam, votam e aprovam verbas partidárias, criam regras e acordos para salvar colegas de cada partido possivelmente envolvidos em escândalos, cujo povão, simplesmente acha engraçado, fazem gozação e acostumou a chamar de pizza. E. Por aí vai os chamados caixa 2, doações particulares e de empresas de mentirinhas, na maioria das vezes para tapar o sol com a peneira e levar a população na conversa mole.
Raimundo Lopes Faria
Raimundo Lopes Faria disse: 12 novembro 2015
Discordo no artigo do Sr.Menim,em dizer que não há "Depois que o leite derrama sempre fica mais fácil identificar as causas da catástrofe#...No entanto, durante o processo que culminou com o derrame do leite, as opiniões são muito mais controversas e nem sempre o panorama é descortinado com clareza e objetividade.Ora, apesar de sermos um país em desenvolvimento(um do Brics), e a bem pouco tempo termos sido a quinta economia no mundo,temos muito que lamentar a falta de controle nosso, pois deixamos que a maior empresa privada do Páis, fosse literalmente "depenada", que a política corruptora fosse instalada,a titulo de um país de "ricos" e que uma politica paternalista,onde o "fome zero" e o "bolsa família" criasse a falsa impressão de riqueza.Ora se isso, não foi uma boa parte do nosso leite derramado,onde está o resto.O povo brasileiro, que nunca soube como votar, merece bem a corja de políticos desonestos que elegeram.O empresariado, também peca, por não agir contra a velha máxima, que em nosso País, ninguém consegue ganhar as licitações do governo,se não pagar propina.Talvez não seja todos, mas a grande maioria quer ganhar de qualquer jeito e não interessa como.

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