O Preço do Petróleo e os Reflexos na Economia

Publicado em 05 fevereiro 2015

2 comentários

A forte queda nos preços internacionais do petróleo, iniciada no segundo semestre do ano passado e intensificada nos primeiros meses do ano em curso tem muito maior importância para o nosso país do que poderia parecer à primeira vista. Os preços atuais do petróleo, da ordem de US$ 50 por barril – equivalentes aos que prevaleciam no início de 2005 – seriam mesmo tão vantajosos para o Brasil quanto alguns crêem, por sermos importadores dessa commodity? Seriam, se isso tivesse ocorrido somente com o petróleo, afetando apenas aqueles países que passaram a viver da sua exportação (Venezuela, Rússia, etc.) e que ficaram com suas receitas reduzidíssimas de uma hora para outra. Fazemos, de fato, alguma economia, ao importarmos petróleo a preços inferiores aos nossos custos de produção, em algumas circunstâncias. No entanto, a maior parte dessa queda foi influenciada por retração na demanda global, em decorrência do desaquecimento econômico quase generalizado. E o fenômeno alcançou, também, outras commodities de cuja exportação somos dependentes (minérios, soja, café, açúcar, etc.). No frigir dos ovos, não está sendo um bom negócio para o Brasil.


Existe, hoje, um pensamento quase unânime entre os analistas especializados de todo o planeta: os países que se transformaram em "commodities dependentes", ou seja, aqueles cuja economia concentrou-se na exportação de um ou de poucos produtos que, na época da prosperidade global e de elevação continuada das demandas, passaram a apresentar preços elevados, optaram por uma estratégia perigosa e infeliz. Também é quase uma unanimidade a recomendação de que essa armadilha tem que ser desmontada, (sempre que possível), com a diversificação da economia de cada um desses mesmos países.


No caso brasileiro, esse panorama fica mais complexo por conta da ação de outros fatores adversos. De um lado, pode restar frustrada a esperança que todos estávamos depositando na "riqueza" do Pré-Sal, que talvez não se materialize integralmente, por falta de competitividade com o novo petróleo barato. A minha opinião sobre esse assunto poderá ser compreendida, com mais detalhe, com a leitura da série "Pré-Sal e Petrobras, (1) e (2)", que publiquei em novembro de 2012 neste mesmo blog. De outro lado, o longo período em que o nosso Banco Central praticou a equivocada política de manter o câmbio artificialmente valorizado, com as seguidas intervenções na forma de "swaps cambiais reversas", acabou por produzir o efeito da "desindustrialização", dificultando a desejada diversificação da economia nacional para fugir da dependência excessiva da exportação de commodities.


Felizmente, contamos ainda com dois setores, que embora vivendo as suas próprias dificuldades, poderão prestar um grande serviço imediato na busca da tão necessária diversificação econômica. Refiro-me aos setores da Construção Pesada (responsável pelas obras de infraestrutura) e da Construção Predial (responsável pelo segmento habitacional). A esse propósito, nunca é demais lembrar que esses dois setores foram, justamente, os responsáveis pela sustentação do desenvolvimento da China, até que a economia daquele país atingisse o nível de diversificação atual. É verdade que o setor da Construção Pesada vem enfrentando dificuldades extraordinárias, principalmente no que diz respeito à infernal burocracia, à elevada carga tributária e à má vontade governamental para com a desestatização dos equipamentos e sistemas de infraestrutura. Mas, removidos esses entraves, esse segmento poderá voltar a exercer o seu tradicional papel de propulsor do desenvolvimento econômico. Por seu turno, a Construção Predial também está trabalhando em um ritmo muito inferior ao do seu potencial (demonstrado em anos anteriores). A demanda por novas moradias permanece aquecida e o crédito imobiliário ainda está disponível com facilidade. Os entraves, neste caso, decorrem das oscilações dos estímulos governamentais, da intermitência dos programas setoriais específicos e do elevado "Custo Brasil". Por mais incrível que possa parecer, nesse setor estratégico, o número de vagas abertas despencou 64,4% entre 2013 e 2014, ou seja, deixaram de ser criados 106.476 postos de trabalho no ano passado (situação que não ocorria desde 2003).


Em resumo, entendo que as facilidades existentes para a diversificação rápida da economia brasileira estão disponíveis e capacitadas, e deveriam ser estimuladas com a remoção estratégica dos empecilhos e entraves atuais, para não acelerarmos a nossa excessiva dependência da exportação de commodities.

  • COMPARTILHE:

2 comentários para "O Preço do Petróleo e os Reflexos na Economia"

Flávio Gonçalves
Flávio Gonçalves disse: 05 fevereiro 2015
Não vislumbro uma saída para a diversificar a economia sem uma reforma tributária há muito esquecida pelos nossos políticos. Falta vontade política.
Valdir Fortes Perez
Valdir Fortes Perez disse: 06 fevereiro 2015
Mediante a uma leve Amnésia brasileira faço lembrarmos de uma das crises do Petróleo no mundo... Em apenas cinco meses, entre outubro de 1973 e março de 1974, o preço do petróleo aumentou 400%, causando reflexos poderosos nos Estados Unidos e na Europa e desestabilizando a economia por todo o mundo. É Justamente este momento que coincide com o fim do milagre econômico ocorrido na ditadura militar no Brasil. A crise do petróleo que barrou os altos índices de crescimento do Brasil foram fundamentais para a população começar a se rebelar contra o regime militar no país, fazendo aumentar as críticas e transparecer os abusos que o governo encobria ao longo dos anos com a máscara do crescimento nacional. Mas antes dessa crise houvera outra. São identificados cinco momentos na história mundial de crise do petróleo.

O primeiro deles ocorreu em 1956 quando o presidente do Egito nacionalizou o Canal de Suez que era de propriedade de uma empresa Anglo-Francesa. A medida fez com que o abastecimento de produtos nos países ocidentais fosse interrompido, o que causou aumento no preço do recurso natural.

O segundo momento foi o relatado acima, de 1973, como via de protesto ao apoio que os Estados Unidos davam a Israel durante a Guerra do Yom Kipur. No qual os países membros da OPEP supervalorizaram o preço do petróleo.

O terceiro ocorreu durante a crise política no Irã que desorganizou o setor de produção no país. Logo em seguida à Revolução do Irã, travou-se uma guerra entre o mesmo país e o Iraque que reduziram a produção de petróleo e causaram o aumento do preço do produto no mundo, já que os dois eram os maiores produtores e a oferta do petróleo ficou reduzida no mercado mundial.

Em 1991 teve início a Guerra do Golfo que gerou um novo momento de crise. O Kuwait foi invadido pelo Iraque, os Estados Unidos intervieram no conflito e expulsaram os iraquianos do Kuwait, que antes de sair incendiaram poços de petróleo de tal país causando uma crise econômica e ecológica.

O quinto momento de crise é muito recente, em 2008 movimentos especulativos de escala global fizeram com que o preço do produto subisse 100% entre os seis primeiros meses do ano.

Não é por acaso então que essa ciência social, que um dia foi injustamente chamada de Lúgubre (dismal science), vem ganhando, a cada dia, maior importância na vida de todos nós.

Diante coyle, em Sexo, drogas e Economia, livro que retrata a Economia sob um ponto de vista diferenciado, afirma (...) qualquer um que deseja que o mundo seja um lugar melhor deve conseguir pensar como economista.

Tal afirma carrega parcela considerável de veracidade afinal, indiscutivelmente, qualquer mudança na atividade econômica acarreta sensíveis alterações no comportamento social, politico e cultural dos indivíduos.
(Trecho tirado em algumas pesquisas)

Valdir Perez

Deixe uma resposta O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também

Renda Per Capita Líquida

Publicado em 08 março 2017

O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – órgão vinculado ao Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão – acaba de divulgar os resultados principais das contas nacionais do exercício de 2016, quais sejam, o PIB – Produto Nacional Bruto e seus derivados diretos. O PIB, na realidade, corresponde à soma de todas as riquezas produzidas dentro do território nacional (desconsiderados os recebimentos recebidos do e as remessas enviadas para o exterior). Essa variável inclui...
Leia mais »

2017 vem aí!

Publicado em 29 dezembro 2016

3 comentários

É fácil aferir o sentimento dos brasileiros acerca do ano que está terminando. À medida que se aproxima o dia da virada de exercício, as manifestações, íntimas ou públicas, da grande maioria dos nossos patrícios só variam na forma ou no adjetivo de qualificação, mas, em geral, quase todas convergem para uma constatação fortemente depreciativa: vai-se embora um ano que não deixa saudades! De fato, foi um ano em que vivemos turbulências políticas e desastres econômicos sucessivos, que acabaram...
Leia mais »

Excesso de Justiça Não é Coisa Boa

Publicado em 31 agosto 2016

1 comentários

Existe uma enorme diferença entre uma sociedade estruturada com base em relações justas entre os cidadãos, com a observância geral dos direitos e sem a prepotência imposta pelos mais fortes, e outra em que os mecanismos de Estado utilizados para garantir essas mesmas relações justas e isonômicas são excessivamente exigidos, apresentam-se permanentemente congestionados e funcionam com intensidade além das expectativas razoáveis. Na primeira hipótese, temos uma situação equilibrada e saudável,...
Leia mais »

Juros Altos: Como Enfrentar Esse Inimigo

Publicado em 25 maio 2016

Antes de 1994, quando a URV (Unidade Real de Valor) foi substituída definitivamente pelo Real (a nova moeda que circula até hoje), a inflação era, de longe, o maior inimigo dos brasileiros e de nossa economia. De fato, àquela altura (junho de 1994), a inflação mensal era de 47,43% e a inflação anual alcançava o inacreditável patamar de 4.922%. Ou seja, o preço de todos os bens ou serviços subia quase 50% em um único mês, entre dois recebimentos consecutivos do mesmo salário!  Essa balbúrdia...
Leia mais »

Mazelas da Indústria

Publicado em 13 abril 2016

2 comentários

Os diversos fatores (internos e externos) que concorreram para debilitar a economia brasileira no momento atual combinam-se de maneira diferenciada em sua ação deletéria pelos diversos setores e segmentos. Por isso, algumas atividades acusaram mais rapidamente os seus efeitos. Também por isso, outros segmentos foram afetados mais fortemente. No presente tópico, quero destacar especificamente o comportamento do setor industrial nessa época de crise e alinhavar algumas das características...
Leia mais »