O que há com as nossas cidades?

Publicado em 19 fevereiro 2013

Somos um país urbano, com mais de 85% da nossa população vivendo nas cidades. E esse percentual tende a continuar em trajetória de expansão. Essa é mais uma peculiaridade socioeconômica nacional. Com efeito, nos EUA, por exemplo, o contingente populacional em "situação urbana" não excede 82%. Entre os BRICS, a nossa posição nesse particular também é preponderante: Rússia (73%), África do Sul (56%), China (47%) e Índia (30%). Por essa razão, cada vez mais, a qualidade de vida nas cidades ganha importância, já que afeta um contingente crescentemente expressivo de brasileiros.

Cada um de nós, que vive em cidades médias ou grandes, sabe que a nossa qualidade de vida não é a desejável e precisa ser muito melhorada. A Universidade Mercer, uma das mais antigas e conceituadas instituições norte-americanas, vem editando anualmente um alentado estudo comparativo entre as principais cidades do mundo, focando, em cadernos específicos, temas como custo de vida e qualidade de vida. No estudo de 2012, o relatório da Mercer sobre qualidade de vida alcançou 221 cidades, situadas em todos os continentes. Como de hábito, foi uma pesquisa abrangente, que considerou e ponderou aspectos muito variados, desde aqueles estritamente urbanos, como suprimento de energia, abastecimento de água, serviços de telefonia e correios, mobilidade pelos sistemas de transporte público ou congestionamento de trânsito, até aqueles "extra urbis", que incluem as conexões com outras regiões e cidades, através de aeroportos, portos, hidrovias e ferrovias e as facilidades de abastecimento, abrangendo a diversidade de rotas e destinos.

Neste tópico, pretendo focar, exclusivamente, a questão da infraestrutura e seus efeitos na qualidade de vida das cidades, abstraindo muitos aspectos mais complexos examinados pela Mercer, como os relacionados com a segurança, criminalidade, riscos de catástrofes naturais, cumprimento da lei, liberdade de expressão e locomoção, ambiente cultural, etc. Para esse propósito, vale à pena examinar o posicionamento das cidades brasileiras no ranking específico de infraestrutura elaborado pela Mercer: Rio de Janeiro (98ª), Brasília (101ª) e São Paulo (116ª). Evidentemente, esse mau posicionamento no quesito de infraestrutura acabou comprometendo a avaliação final das cidades brasileiras, no âmbito do ranking geral da qualidade de vida: Brasília (102ª), Rio de Janeiro (112ª) e São Paulo (115ª). Em outros termos, a qualidade de vida depende diretamente das facilidades infraestruturais e a melhoria dessas últimas tem implicações automáticas no alcance de melhores padrões gerais.

Essa situação desfavorável não aconteceu por acaso. Passamos um tempo demasiado longo descuidando das nossas cidades enquanto elas inchavam e se expandiam a taxas elevadíssimas, sem que fizéssemos os investimentos necessários em infraestrutura urbana. Agora, temos que correr atrás do prejuízo, se quisermos, de fato, melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Nas grandes cidades, há que se implementar um sistema eficiente de transporte de massa, incluindo, em alguns casos, um metrô amplo, confortável e seguro. Em quase todas elas, também, os terminais aeroportuários, ferroviários e rodoviários precisam de ampliação urgente, para que possam atender satisfatoriamente as demandas reprimidas. E, praticamente sem exceção, todas as nossas cidades precisam de vias de tráfego mais seguras e eficientes, de estruturas capazes de eliminar pontos críticos no trânsito urbano, de obras de drenagem pluvial e de contenção de inundações, de ampliações e melhorias nos sistemas de saneamento básico (incluindo água e esgoto), de extensão e universalização dos serviços postais, de energia e de telecomunicações e de construção de equipamentos de lazer. Essa seria uma agenda mínima para a recuperação das nossas cidades, que precisaria ser efetivada e concluída em prazo não muito longo. Caso contrário, a nossa qualidade de vida continuará a se deteriorar e, talvez, nem estejamos mais incluídos no ranking comparativo internacional daqui a algum tempo.
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