Os Agentes do Atraso

Publicado em 14 novembro 2012

1 comentários

A expressão "herança maldita" caiu no gosto da mídia e tem sido usada pelos políticos para qualificar negativamente o legado deixado de um governo a outro. Presidentes e ex-presidentes têm feito uso dessa expressão sem se darem conta de que, para os brasileiros, maldita mesmo é a burocracia herdada do Estado Colonial Português e esmeradamente ampliada nos cinco séculos da nossa própria história.

Nesse particular, nós conseguimos nos superar a cada ano e podemos nos orgulhar de termos nos transformado no país mais burocrático do mundo. Temos, hoje, uma máquina pública inchada, balofa, obesa, lerda, paquidérmica, jurássica, injusta e caríssima, mas extremamente sofisticada no seu ofício de criar e aplicar a burocracia. O burocrata brasileiro, de todos os níveis, desenvolveu um perfil próprio e facilmente reconhecível por qualquer infeliz cidadão condenado a pagar-lhe os salários e mordomias e a sofrer na dependência de seus favores ou carimbadas. Em artigo recente, o jornalista J. R. Guzzo sintetizou com perfeição esse estilo ao identificar o burocrata nacional como aquele para quem todas as coisas são divididas, unicamente, em duas categorias: as proibidas e as obrigatórias. Não é à toa que alcançamos, também, outro recorde mundial: são fabricados, anualmente, no país, quase 30 milhões de carimbos, de todas as espécies e formatos. Haja carimbada! E haja papéis, requerimentos, despachos e projetos a carimbar!

O pior de tudo isso é que nenhum carimbo é concebido ou encomendado no propósito de agilizar algum procedimento burocrático. Pelo contrário, cada carimbada geralmente é dada com o objetivo de retardar, obstaculizar, impedir, encarecer ou negar pedidos, providências, pagamentos ou ações requeridos pelos cidadãos normais na labuta diária e inglória pela sua sobrevivência como pessoa produtiva e boa pagadora de impostos.

No caso brasileiro, os processos morosos e caros ainda são agravados pela excessiva concentração de poder nas mãos que efetuam ou ordenam as carimbadas. De fato, sem qualquer compromisso com a produtividade e, quase sempre, mal qualificados, os agentes do atraso acabam reunindo um poder excessivo para submeter e escravizar os cidadãos e empresas deles dependentes. Essa é a grande doença nacional e a causa principal do nosso baixíssimo desempenho econômico no cotejo internacional. Tudo isso para não mencionar a doença oportunista da corrupção, que viceja sempre nos ambientes de dificuldades criadas para a venda de facilidades.

O Banco Mundial publica, anualmente, o estudo "Doing Business", com uma análise cuidadosa e detalhada das condições de produção e do ambiente de negócios em quase todos os países do mundo. Na edição de 2012, que abrangeu 185 países ou regiões autônomas, o Brasil desceu mais alguns degraus, situando-se, agora, na 130ª posição do ranking internacional, ou seja, no final da lista. Por incrível que possa parecer, somos superados nesse ranking por países como Bangladesh, Botsuana, Etiópia, Suazilândia e Uganda. Doloroso e sintomático observar também que, entre os onze parâmetros analisados pelo Banco Mundial para fins de classificação, as nossas piores posições corresponderam, em 2012, à carga tributária (156ª), à solução de insolvências (143ª) e à obtenção de alvarás para construções (131ª).
Num cenário desses, não há projeto de crescimento nacional que possa prosperar, por melhores que sejam as dádivas que a natureza nos concedeu em abundância. E não há, também, como tratar de outra "herança maldita" que não seja a nossa asfixiante, paralisante e nefanda burocracia.
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1 comentários para "Os Agentes do Atraso"

Mario Viana
Mario Viana disse: 14 novembro 2012
Pois é Rubens. O saudoso Ministro Helio Beltrão, com quem tive a honra de trabalhar , tentou mudar este tenebroso quadro. Infelizmente, tudo que ele fez voltou a estaca MENOS ZERO ! abraços
Atendimeneto MRV Engenharia
Atendimeneto MRV Engenharia disse: 28 março 2016
Bom dia Andrea! Confira mais dicas de decoração no site www.mrvdecora.com.br . Um abraço, Mr.V.

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