Precisamos organizar o barco

Publicado em 07 outubro 2015

6 comentários

Estamos todos à deriva no mesmo barco, navegando através da pior crise fiscal da história brasileira. O declínio econômico nos atropela de forma acelerada e visível, e já afeta parte substancial da nossa população, além de projetar sombras perigosas sobre o futuro.


No entanto, embora a parcela mais ligada da nossa sociedade já se tenha dado conta dessa situação preocupante, não conseguimos escolher o rumo certo e nem começar, desde logo, a desviar dos escolhos e a recuperar as posições perdidas nesta crise global. Esse é o problema maior! Enquanto forçamos o nosso barco a seguir desgovernado, agravando os nossos déficits e riscos, os políticos que nos representam engalfinham-se em luta insensata pelo simples controle do timão. Maior que os problemas econômicos imediatos é essa crise política que se instalou no país, na disputa para definir quem tocará o barco e que hegemonia partidária prevalecerá.


Temos que superar logo esse estágio. Estou firmemente convencido de que, sem um grande e patriótico acordo político que apazigúe o ambiente e reorganize a capacidade operacional das instituições, não conseguiremos perseguir, objetiva e sistematicamente, as soluções para os nossos gravíssimos e urgentes problemas econômicos. No ambiente tumultuado em que se transformou o sistema político nacional, as medidas mais abrangentes para a correção de curso não conseguem ser implementadas, seja por serem impopulares, seja por simples picardia dos partidos e grupos que se digladiam no palco. Temos que ter seriedade e objetividade nesse momento especialmente crítico, optando pela busca ou manutenção de valores e princípios e descartando o embate pequeno da intransigência partidária. Temos que ter moderação e sabedoria para resolvermos o impasse atual, organizando o consenso nacional na busca da inadiável solução desta crise, evitando traumas e delongas.  Nesse caminho, qualquer que seja o desfecho acordado, com estrita observância da Lei e da Constituição, precisamos restaurar a capacidade operacional das instituições, garantindo a chamada "governabilidade" nos estágios subseqüentes, quando as batalhas que interessam à economia terão que ser travadas e vencidas. E quanto mais rápido, menores serão os prejuízos acumulados pela nação.


Não posso deixar de exemplificar os efeitos do ambiente político tumultuado em que fomos lançados pelo clima atual de desacerto. E vou exemplificar com um assunto do nosso mercado imobiliário, que conheço bem de perto. Trata-se do projeto de lei que está tramitando no Congresso Nacional sobre a forma de remuneração dos depósitos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Existe uma antiga e justa reclamação das centrais sindicais em favor do aumento de remuneração dos depósitos, prejudicada, principalmente, em épocas de recrudescimento inflacionário, como a atual. No entanto, os efeitos de qualquer mexida nessa questão têm que ser considerados em uma ótica mais ampla, pelas inúmeras conexões que os recursos capitalizados neste Fundo têm com outros segmentos e sistemas. É o caso do financiamento da casa própria. Na forma em que o projeto de lei foi aprovado na Câmara dos Deputados e encaminhado ao Senado Federal, as prestações dos financiamentos para a Faixas 2 e 3 do Programa Minha Casa Minha Vida poderão sofrer acréscimos de até 30%. Uma temeridade! E isso só aconteceu por causa das dificuldades atuais de coordenação política. Esse exemplo reforça a idéia de que precisamos, prioritariamente, resolver a crise política e organizar o barco, não só para formarmos um consenso nacional positivo, garantindo a governabilidade para que as medidas econômicas sejam encaminhadas e adotadas, como também para evitar que prosperem soluções casuísticas e equivocadas como a que mencionei neste parágrafo.

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6 comentários para "Precisamos organizar o barco"

Andres Mendez
Andres Mendez disse: 07 outubro 2015
É uma. Crise de cultura,de educacao,formação e os políticos representam isso,temos que mudar nosso jeito de pensar e agregar valores a nossa vida,pode ser um erro pensar apenas na crise política ou econômica,tratase de crise de responsabilidade e temos que aprender a assumir a nossa parte
João Campos
João Campos disse: 07 outubro 2015
Analogia providencial com a embarcação . A maior preocupação, realmente, deve ser com as pessoas que fazem essa embarcação funcionar.
Estamos vendo uma luta de partidária, de "poder" pelo "poder", desprovida de ideologia e fins claros, o que é triste e preocupante.
João Carlos Campos
João Carlos Campos disse: 07 outubro 2015
Analogia providencial com a embarcação . A maior preocupação, realmente, deve ser com as pessoas que fazem essa embarcação funcionar.
Estamos vendo uma luta de partidária, de "poder" pelo "poder", desprovida de ideologia e fins claros, o que é triste e preocupante.
Mariluz
Mariluz disse: 09 outubro 2015
Estamos à deriva e não sabemos quem vai conduzir esse barco.
pois vejo que os políticos nesse momento deveriam se juntar para ver como vão conduzir esse barco pois todos estão na mesma situação se barco afundar todos vão se afogar...
Mei Santana
Mei Santana disse: 09 outubro 2015
O Brasil é um doente crônico que deve ser tratado com muito cuidado, padece de enfermidade que devasta o nosso país de forma evolutiva e mutiladora.Toda vez que eclode uma roubalheira somos nós quem pagamos, isso é inaceitável. Onde vamos parar?
Para o governo esconder a crise é uma forma de se encapsular, para proteger-se e tornar-se inatingível diante de tantas críticas e diante de uma minoria esclarecida. Enquanto tivermos cidadãos desprovido de uma boa educação e conhecimento suficiente para exercer a sua cidadania, vamos ter de enfrentar e suportar essa doença progressiva e vergonhosa que assola o nosso país sem nenhuma piedade.
Andres Mendez
Andres Mendez disse: 27 outubro 2015
Temos um barco navegando dentro de uma tormenta e nosso capitão fez curso pela internet, nossos marinheiros queriam ser aviadores e não existem salvavidas no barco e o pior esquecemos como orar e pedir ajuda a Deus porque aprendemos que vivemos em um estado laico onde cada um pode escolher seu Deus e a religião nao tem valores

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